Quando a festa vira palanque — e o limite entre comunicação e crime começa a desaparecer
O Carnaval sempre foi uma das maiores expressões culturais do Brasil. É o momento em que o povo ocupa as ruas, celebra sua identidade e transforma a alegria em manifestação coletiva. Mas, nos últimos anos, uma pergunta incômoda passou a surgir com mais frequência: quando termina a valorização cultural e começa a promoção pessoal financiada com dinheiro público?
A recente repercussão envolvendo ações de comunicação associadas ao governo federal e à imagem do presidente durante o Carnaval reacendeu esse debate. Não se trata de questionar a importância da festa nem de negar o papel do poder público no incentivo à cultura. O ponto central é outro — é entender quando a comunicação institucional ultrapassa o interesse coletivo e passa a servir como ferramenta de construção de imagem pessoal.
Existe uma diferença clara entre divulgar uma ação de governo e promover um governante. A primeira é obrigação. A segunda, quando feita com recursos públicos, é desvio de finalidade.
E essa diferença se torna ainda mais sensível em ano eleitoral.
A legislação brasileira é bastante objetiva ao estabelecer limites para a publicidade institucional. O princípio é simples: o recurso público deve informar, não promover; deve orientar, não enaltecer; deve servir ao cidadão, não ao ego de quem ocupa o cargo. Quando esse limite é ignorado, não estamos mais falando apenas de comunicação — estamos falando de abuso de poder.
O problema não é o Carnaval. O problema é usar o Carnaval.
Porque o Carnaval oferece algo que nenhum outro evento oferece na mesma escala: visibilidade emocional. As pessoas estão abertas, conectadas, participativas. Associar uma imagem política a esse ambiente é extremamente poderoso. E é justamente por isso que o cuidado deveria ser redobrado.
Esse debate, apesar de nacional, precisa servir como alerta também para a realidade municipal.
Nas cidades, o risco é ainda maior, porque a proximidade entre governo e população torna tudo mais visível — e, ao mesmo tempo, mais difícil de ser questionado. Uma faixa, um banner, um vídeo institucional ou até mesmo a forma como uma ação é apresentada podem ultrapassar a linha da informação e entrar no território da promoção pessoal.
E é nesse ponto que mora o perigo silencioso.
O gestor público precisa entender que a cadeira que ocupa não é extensão de sua identidade pessoal. É uma função temporária. O recurso que administra não é dele. É da população.
Quando um governante utiliza a estrutura pública, direta ou indiretamente, para fortalecer sua própria imagem, ele não está apenas cometendo um erro de comunicação. Ele está quebrando um princípio básico da administração pública: a impessoalidade.
E isso tem consequências.
Não apenas jurídicas, que podem levar à caracterização de crime eleitoral, mas também morais e institucionais. Porque a confiança pública é construída sobre a percepção de justiça e equilíbrio. Quando essa confiança é abalada, o prejuízo é coletivo.
A comunicação pública é uma ferramenta poderosa demais para ser tratada como instrumento pessoal. Ela molda percepções, constrói narrativas e influencia decisões. Por isso, exige responsabilidade.
O cidadão pode até não conhecer todos os detalhes técnicos da legislação, mas percebe quando algo parece errado. Percebe quando o foco deixa de ser a ação e passa a ser a pessoa. Percebe quando a estrutura pública começa a servir mais ao governante do que à comunidade.
O Carnaval termina. A música para. As luzes se apagam.
Mas a forma como o poder foi exercido permanece.
E é justamente nesses momentos que se revela quem entende que governar é servir — e quem acredita que governar é aparecer.
Nota | Opinião
Em meio às recentes manifestações de carnaval, em que fantasias retrataram famílias “em conserva” como forma de crítica e deboche, escolho ressignificar essa imagem. Diferentemente do que pensam os foliões da desconstrução, estar “em conserva” significa manter o sabor, a qualidade e a integridade, mesmo com o passar do tempo e das modas passageiras.
Se, para alguns, é motivo de riso, para mim é motivo de orgulho. Porque, enquanto o Carnaval acaba na quarta-feira, nossos valores permanecem intactos.
Não se trata de atacar ou diminuir ninguém. O respeito precisa acontecer dos dois lados. Assim como eu respeito a decisão individual de cada pessoa sobre como viver, pensar ou se expressar, também acredito que o respeito precisa ser mútuo.
No fim, mais importante do que qualquer rótulo, é lembrar que, por trás de cada “família em conserva”, existe amor, compromisso e a livre escolha de preservar aquilo em que se acredita.
ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC.
Comentários: