A FÁBRICA DE SINTOMAS
O paciente chegou na sexta-feira, 19h30. Único horário que tinha. Trabalha de segunda a sábado, sai às 18h, pega ônibus, chega em casa às 19h15, toma um banho de quinze minutos e vem para a sessão. Está sempre cansado. Não o cansaço bom, que antecede um descanso merecido. Um cansaço rançoso, que já se instalou nos ossos e não sai nem no domingo — porque domingo, para ele, não é descanso. É o dia de lavar a roupa, fazer compras, resolver pendências, e tentar dormir um pouco antes que a segunda-feira comece de novo.
Ele tem dores difusas. As costas doem, o ombro dói, a cabeça dói. Fez exames. Não tem hérnia de disco, não tem artrite, não tem tumor. Tem uma vida. A vida dele é uma escala 6x1. E o corpo, como sempre, foi o primeiro a fazer as contas.
A escala 6x1 é uma máquina de produzir sintomas. Não uma máquina metafórica — uma máquina real, com engrenagens de concreto. Seis dias de trabalho, um dia de descanso. O matemático diria que a proporção é de 6 para 1. O trabalhador diria que a proporção é de cansaço para culpa. Porque no domingo, aquele único dia, ele não descansa de verdade. Ele apenas adia o colapso.
O que a psicanálise entende bem é que o trabalho não é só fonte de sustento. É também fonte de identidade. Quando a gente pergunta "o que você faz?", não está perguntando sobre seu hobby. Está perguntando qual é o seu lugar no mundo. O trabalhador da escala 6x1 não tem um lugar. Tem uma função. Ele não é alguém que trabalha. Ele é o trabalho. E quando o trabalho acaba, não sobra ninguém.
As patologias do labor são muitas, mas a escala 6x1 tem uma especialidade: a aniquilação do tempo subjetivo. O tempo do trabalhador não é dele. É da empresa, do deslocamento, da fila do ônibus, da marmita esquentada no micro-ondas do escritório. Não sobra tempo para o que Freud chamava de "vida amorosa e cultural". Não sobra tempo para o desejo. O desejo, na escala 6x1, é um luxo. Primeiro você sobrevive. Depois, se sobrar algo, você vive.
O corpo sabe disso antes da mente. O paciente das dores difusas não sabe por que dói. Sabe que dói. O médico diz que é estresse. O chefe diz que é falta de atitude. A mulher diz que é falta de cuidado consigo mesmo. Ele toma remédio para dormir, remédio para a ansiedade, remédio para a gastrite. A lista de comprimidos já é maior que a lista do supermercado. E ainda assim, o cansaço não passa. Porque o cansaço da escala 6x1 não é físico. É existencial.
Talvez o trabalho seja a forma que a gente encontrou de não ter que pensar na morte. E a escala 6x1 é a forma que a gente encontrou de não ter que pensar em nada. O pensamento exige pausa. Exige tédio. Exige aquela janela de tempo em que a mente vagueia e encontra o que não estava procurando. Na escala 6x1, não há janela. Há apenas uma fresta no domingo à noite, quando o trabalhador olha para o relógio e percebe que o descanso acabou antes de começar.
A aprovação da PEC que reduz a escala 6x1 para 5x2, foi uma vitória política, sim. Mas foi também, e talvez principalmente, uma autorização para o descanso. O Estado dizendo: você pode parar. Você merece parar. O trabalho não é sua única razão de existir.
Agora, com dois dias de folga, o que esse trabalhador vai fazer? Não sei. Mas aposto que, nos primeiros meses, ele vai sentir um mal-estar estranho. Vai sentir culpa por não estar produzindo. Vai sentir ansiedade por ter tempo livre. Vai sentir, enfim, o que todo mundo sente quando sai da esteira: o vazio. E o vazio, como se sabe, é o lugar onde o desejo pode, enfim, aparecer. Ou onde a angústia se instala de vez.
Depende do que ele fizer com esse tempo. Depende se ele vai preencher os dois dias com mais trabalho (um bico, um curso, uma obrigação) ou se vai se permitir a experiência radical de não fazer nada. Não fazer nada é o maior dos prazeres e, também, o mais aterrorizante. Porque não fazer nada expõe a pergunta que a escala 6x1 mantinha soterrada: o que eu quero, de fato?
A escala 5x2 não vai curar a neurose do trabalhador brasileiro. Vai, isso sim, mudar o formato do divã. Vai dar a ele tempo para se deitar e pensar. E pensar, como a psicanálise ensina, é o começo de tudo. Inclusive da cura.
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