Dearest Gentle Reader,
CUIDADO.
Este texto contém provocações contemporâneas e pode causar desconforto. O leitor desavisado pode experimentar uma súbita crise de enfraquecimento do potencial de leitura, com risco de desenvolver uma compulsão irreversível por Bobbie Goods.
Feito o aviso, sinto-me mais ético para responder ao desafio que me foi proposto por um amigo. Um tanto sádico pelo tema, mas ainda assim amigo. A pergunta é simples, mas nada inocente: por que ainda ler Sigmund Freud no século XXI?
Se me permite, começo por essa pequena palavra que carrega uma certa malícia: “ainda”. Trata-se de um advérbio de tempo com valor de continuidade. Mas não só. Ele traz embutida uma tensão, quase uma desconfiança. Como se a pergunta já viesse acompanhada de um incômodo. Por que continuar lendo Freud? Por que isso não ficou no passado?
Sou um admirador confesso da obra freudiana, o que torna essa proposta um tanto ousada. Ainda assim, já que comecei sob a inspiração da enigmática Lady Whistledown, tomo a liberdade de inverter a pergunta. O que segue é uma tentativa de resposta sob outro ângulo: por que não ler Freud no século XXI?
Respira-se fundo. Uma pausa. Gelo batendo em um copo de gim tônica. O som imaginário de uma máquina de escrever ganha ritmo.
Caro leitor,
“Não somos donos de nossa própria morada”, escreve Freud. Em poucas palavras, ele desmonta uma das maiores certezas do pensamento ocidental.
No final do século XIX, em Viena, em meio a transformações culturais intensas, Freud, então médico neurologista, começa a se afastar das explicações puramente orgânicas para o sofrimento psíquico. Ao escutar suas pacientes, especialmente mulheres diagnosticadas com histeria, inaugura um método baseado na palavra, na escuta e na associação livre. O chamado Talking Cure.
É nesse contexto que surge o inconsciente. Uma instância que escapa ao controle da consciência, mas que orienta desejos, sintomas e escolhas. A famosa frase sobre não sermos donos de nossa morada aponta exatamente para isso. O sujeito deixa de ser senhor de si e passa a ser, em parte, estrangeiro em sua própria casa.
A obra de Freud não apenas funda a psicanálise, como também abala a crença de que a razão governa plenamente o ser humano. A partir dele, compreender o sujeito implica lidar com aquilo que insiste em não se deixar dominar.
E é aí que o problema começa.
Ler Freud nunca me pareceu uma tarefa simples. Sempre me soou como um tipo de crossfit mental. Quando, no início deste texto, usei o alerta “cuidado”, eu falava também da dificuldade real de se implicar em uma leitura como essa. Vivemos em tempos de relações rápidas, descartáveis. Eu mesmo já tive relacionamentos mais curtos do que o tempo de preparo de um miojo.
Há algo curioso na experiência de leitura de Freud. Em determinado momento, ocorre uma inversão. Você já não o lê. É ele quem passa a ler você. E, convenhamos, não dá para assistir a um episódio da sua série favorita enquanto se mergulha nesse tipo de leitura. Que perda de tempo, não é mesmo?
Imagino que o nosso escritor vienense ficaria bastante desconfortável ao ver a quantidade de livros atuais que prometem felicidade, riqueza, alívio da dor e até amor em poucos passos. Freud nunca ofereceu soluções prontas. Pelo contrário, abriu perguntas e mais perguntas, muitas delas sem resposta. Ele resgata algo que parece cada vez mais raro: o ato de pensar.
E pensar cansa. Frustra. Incomoda. Especialmente para quem está acostumado a manuais rápidos de sobrevivência psíquica.
Além disso, ler Freud exige tempo. E existe algo mais caro hoje do que o tempo, em uma contemporaneidade marcada pela liquidez descrita por Zygmunt Bauman? Vivemos sob uma lógica de urgência, de satisfação imediata, de estímulo constante. Nesse cenário, ler se torna quase um ato de resistência. Exige suportar a falta, tolerar o não saber, adiar recompensas.
Fazer algo sem recompensa imediata. Por quê?
Se a psicanálise nos ensina que o sujeito se constitui na relação com o desejo, sempre incompleto, sempre em movimento, então a leitura de Freud convoca exatamente aquilo que o nosso tempo tenta evitar. Espera, repetição, retorno. Não se trata apenas de entender o texto, mas de se deixar afetar por ele. De aceitar não compreender tudo de imediato. De sustentar a própria divisão.
Talvez seja por isso que ler hoje seja tão difícil. Não por falta de capacidade, mas por excesso de defesa. Defesa contra aquilo que insiste, que retorna, que escapa. Esse estrangeiro íntimo que a leitura convoca e que definitivamente não aparece em vídeos de dez segundos nas redes sociais.
E há mais.
Não ler Freud é também, em certa medida, não ler boa parte do pensamento do século XX. Sua influência atravessa nomes como Jacques Lacan, Carl Jung, Wilhelm Reich, Herbert Marcuse, Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean-Paul Sartre. Curiosamente, nenhum deles virou sucesso de bilheteria em Hollywood.
Pois bem, como prometido, revelo o segredo mais avassalador do ano. Ou melhor, o segundo, porque tivemos as casas de vidro regionais do BBB 26.
Não ler Freud nos protege. Protege da dor e da angústia de nos implicarmos na história do pensamento. Protege do desconforto de reconhecer padrões enraizados em nós mesmos.
Porque ler Freud não é inofensivo. É aceitar abrir fissuras onde preferiríamos manter tudo liso e organizado. É permitir que o que parecia coerente revele suas contradições, seus restos, suas repetições. E isso tem um custo.
Um custo psíquico que vai na contramão do nosso tempo.
Em um mundo onde tudo precisa ser rápido, útil e consumível, ler Freud se torna um gesto quase subversivo. Não lê-lo, por outro lado, é alinhar-se a um funcionamento que recusa a falta, evita pausas e transforma até o pensamento em produto.
O neocapitalismo não quer sujeitos que pensem. Quer sujeitos que funcionem. Não quer divisão, quer eficiência. Não quer perguntas, quer desempenho.
Talvez seja por isso que não ler Freud seja tão tentador. Porque, ao evitá-lo, mantemos a ilusão de controle, de produtividade constante, de um eu sem rachaduras.
No fim das contas, não ler Freud talvez diga menos sobre ele e mais sobre nós.
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Steve Stuart Economista de formação, com trajetória ampliada, literário, psicanalista e sexólogo. Pós-graduado em neurociência, psicopedagogia e leituras dirigidas de Freud. Professor em cursos de formação em Psicanálise e membro arguidor do O Tao Cartel. Cinéfilo e amante das artes, articula pensamento clínico e sensibilidade estética em sua prática. |
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