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Sexta-feira, 05 de Junho 2026
Filipe De Castro

⚖ Por que ler Freud no século XXI continua sendo um ato clínico e político? Especial: Comemorando 170 anos do Pai da Psicanálise

Em tempos de respostas rápidas e felicidade protocolar, a obra do pai da psicanálise resiste como ferramenta para escutar o sofrimento e decifrar o inconsciente

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Por que ler Freud no século XXI

Renata Wirthmann*

 

Ler Freud no século XXI continua sendo um requisito obrigatório para qualquer formação séria em psicanálise. A primeira e mais óbvia razão é que a psicanálise foi inventada por Freud, e todo desenvolvimento posterior depende de um retorno à sua obra. Klein, Lacan, Winnicott, Dolto e tantos outros só puderam construir seus campos teóricos porque havia, antes, a construção freudiana desse novo modo de escutar o sofrimento psíquico. Ler Freud, portanto, é uma condição mínima de trabalho para todo psicanalista.

Além desta primeira, existem inúmeras outras razões, e vamos falar delas. A segunda razão é, para mim, a mais sensata: ler Freud permanece absolutamente necessário porque suas formulações permanecem vivas. Freud nomeou dimensões da experiência humana que sempre foram ignoradas, negligenciadas e, portanto, permanecem (e sempre permanecerão?) desconhecidas pela ciência positivista. Tratam-se de conceitos como inconsciente, recalque, sexualidade infantil, repetição, sintoma, transferência, narcisismo, pulsão, dentre outros. Esses conceitos se atualizam diante dos impasses que atravessam o sujeito na atualidade e nunca venceremos ou esgotaremos o trabalho de estudar tais atualizações. O século XXI mudou os discursos, multiplicou identidades, intensificou a circulação das imagens, acelerou a vida e transformou os modos de sofrimento. Ainda assim, o sujeito continua dividido, continua dizendo mais do que pretende dizer, continua repetindo o que o faz sofrer e continua desejando. Freud seguirá atual enquanto houver inconsciente (consegue imaginar um sujeito sem inconsciente?).

Terceiro motivo, para a atualização de um conceito é imprescindível retomar a fundação daquele conceitos e os pensamentos que sustentaram sua criação. A psicanálise não nasce como sistema fechado e o sistema aberto da teoria Psicanalítica permite constante atualização de suas elaborações. Freud sempre escreveu a partir de impasses, revisões, deslocamentos e reformulações. Freud sempre retornou aos próprios textos, acrescentou notas, corrigiu hipóteses, reviu conceitos, sempre ampliando sua obra a partir das inconsistências que surgiam e que exigiam atenção e reelaboração. Esse modo de escrever de Freud nos ensinou um modo específico de ler. Estudar Freud implica reler, comparar textos, seguir transformações conceituais e reconhecer a psicanálise como uma teoria viva que nunca se conclui. Essa abertura exige enorme rigor e formação permanente. A obra de Freud nos convoca a um trabalho de constante elaboração.

Quarto motivo. O próprio século XXI é um excelente motivo para ler Freud no século XXI. Num tempo marcado pela aceleração da leitura, pela lógica da informação rápida e pela simplificação da vida psíquica em classificações descritivas, Freud sustenta outro tempo. Seu texto pede demora. Pede retorno. Pede interpretação. Ler Freud hoje também é resistir ao empobrecimento da leitura e da escuta.

Quinto motivo: a invenção de Freud ultrapassou a clínica e alcançou de modo amplo a cultura. Freud escreveu sobre arte, literatura, mitologia, religião, ciência, guerra, política etc. Poucos autores do século XX influenciaram com tanta força campos tão diversos. Sua obra influenciou  a antropologia e a sociologia, a literatura e a arte. Impactou a obra de autores como Judith Butler, Simone de Beauvoir, Foucault, Derrida, Lévi-Strauss, Thomas Mann, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Sylvia Plath e Marguerite Duras. Seu impacto é especialmente visível em movimentos artísticos específicos como no surrealismo nas obras de André Breton, Salvador Dalí, Max Ernst, René Magritte.

Por fim, o meu último argumento para convencer você, leitor neste breve texto, a ler Freud no século XXI se dá pela justificativa clínica. Freud inventou uma prática fundada na fala e na escuta, mas não em qualquer fala e nem em qualquer escuta, trata-se da associação livre e da atenção flutuante sustentada pela transferência, mesmo sabendo da enorme dificuldade desta tarefa. No seu estudo autobiográfico, Freud apontou para o grande desafio de abandonar a hipnose: “o trabalho com a hipnose era realmente sedutor. Pela primeira vez superávamos a sensação da própria impotência, e a reputação de fazer milagres era bastante lisonjeira” (Freud, 1925). O trabalho de abandonar a catarse também foi bastante desafiador: “Esse método não apenas parecia mais eficaz do que o mero ordenar ou proibir pela sugestão, como também satisfazia o desejo de saber do médico" (Freud, 1925). Apesar das dificuldades, Freud finalmente abandonou a sugestão e criou “o método de associação livre que tem grandes vantagens em relação ao anterior. Expõe o analisando ao mínimo grau de coerção, nunca perde o contato com o presente real (...) e não introduz nela algum tanto de sua própria expectativa” (Freud, 1925).

A associação livre exige do analista uma posição de abstinência, isto é, a recusa de ocupar o lugar de quem sabe previamente o que o sujeito deve ser, desejar ou dizer. Num tempo em que proliferam práticas que prometem adaptação rápida, felicidade protocolar, desempenho emocional e conformação a ideais normativos, retornar a Freud no século XXI é um posicionamento clínico e político.

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* Renata Wirthmann é Psicanalista, escritora e professora do curso de Psicologia da Universidade Federal de Catalão (UFCAT). Possui pós-doutorado em Teoria Psicanalítica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorado em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB) e mestrado em Psicologia pela UnB. Graduação em Psicologia pela PUC-GO. Sócia-fundadora da Travessia Psicanalítica e coordenadora das pós-graduações em Autismo e Psicanálise e de Psicanálise com Crianças e Adolescentes do Instituto ESPE.

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FONTE/CRÉDITOS: Renata Wirthmann
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