Aguarde, carregando...

Domingo, 26 de Abril 2026
Filipe De Castro

JESUS FAZIA COCÔ, VOCÊ NÃO SABIA?!

Em sua estreia, psicanalista reflete sobre a humanidade de Cristo, a fase anal e as verdades desconcertantes ditas pelos pequenos

ContextoSC
Por ContextoSC
JESUS FAZIA COCÔ, VOCÊ NÃO SABIA?!
Divulgação
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

JESUS FAZIA COCÔ, VOCÊ NÃO SABIA?!

Meu filho Olavo, de quase 4 anos — filósofo de bancada de parque e atualmente residente no que Freud chamaria, com todo rigor técnico, de uma fase anal espetacular — interrompeu minha leitura sobre os Padres da Igreja com uma questão que provavelmente os próprios nunca formularam com tanta clareza: “Papai, Jesus fazia cocô?”

Houve um silêncio. O mundo parou. As aves cessaram seu canto. A pergunta, em sua brutal simplicidade, abalou os alicerces de dois milênios de teologia sistemática. Ali, entre um caminhão de brinquedo e uma meia perdida, eu estava diante do verdadeiro mistério da encarnação.

É claro, do ponto de vista do desenvolvimento, a pergunta é de uma lógica impecável. Na fase anal, o mundo se organiza em torno de um eixo fundamental: o que entra, o que fica e, sobretudo, o que… sai. É a primeira grande metáfora da vida: controle, criação, separação. Tudo é cocô, ou uma variação sobre o tema. Então por que o homem do crucifixo da sala escaparia à regra?

E eis que a pergunta infantil me pegou como as melhores — e mais desconcertantes — intervenções no divã. Ela toca no cerne do que é fazer análise: perguntar, com um misto de candura e crueldade, aquilo que o paciente nunca pensou em formular. Por mais trivial, baixo ou demasiadamente humano que seja. Porque é justamente aí, no recalcado, no trivial indigesto, que mora a verdade mais teimosa. O paciente fala de seus sonhos sublimes, de suas angústias metafísicas, e você, num rompante de inspiração, pergunta: “E o que você acha que sua mãe pensava quando você ia ao banheiro?”. O silêncio que se segue é o mesmo que eu tive diante do Olavo. Um portal se abre.

Porque eis aí o ponto nevrálgico de toda a cristologia: a consubstanciação. Jesus era 100% Deus e 100% homem, nos ensinam os concílios. Tudo muito lindo no papel, com seus termos gregos e seus debates acalorados em Niceia. Mas a humanidade, minha gente, não é feita apenas de choro sobre Lázaro e fome no deserto. A humanidade tem um lado… logístico. Digestivo. Francamente pouco glamoroso. A fase anal não mente.

Se Jesus era plenamente homem, então o sistema gastrointestinal dele funcionava como o de qualquer um de nós. O que nos leva a uma cena perturbadora e teologicamente riquíssima: o Verbo que se fez carne… eventualmente precisava se desfazer de parte dessa carne. O Logos eterno, em confronto com as limitações do cólon. Imagine o Filho de Deus, após a Última Ceia, pensando: “O pão era meu corpo, o vinho meu sangue… mas essa feijoada simboliza o quê, exatamente?”

Os gnósticos, é claro, teriam horror à pergunta do Olavo. Para eles, Cristo era um ser divino que apenas parecia humano (docetismo). Um fantasma sagrado, sem funções corporais desagradáveis. Mais conveniente, sem dúvida. Mas muito menos interessante — e, psicanaliticamente, uma negação patética da matéria. O cristianismo ortodoxo, ao insistir na humanidade real, abraçou o escândalo: o criador do universo sujeito a cãibras, resfriados e — sim — à necessidade de um local reservado. Abraçou, em suma, a fase anal da criação.

É isso que o olhar infantil do meu filho captou com precisão cirúrgica: a fé não é um conto de fadas onde os personagens principais são poupados das trivialidades. É justamente o oposto. É o divino se enfiando de cabeça (e de todo o resto) na mais completa e absoluta trivialidade. O milagre não é andar sobre as águas; o verdadeiro milagre é ser Deus e ainda assim ter de lidar com um intestino preso após quarenta dias no deserto.

No final, respondi ao Olavo com a única verdade possível, aquela que toda análise almeja: “Fazia, filho. Se não fizesse, não era gente de verdade.” Ele pensou um segundo, deu de ombros e foi brincar. A questão estava resolvida. Para ele, pelo menos.

Já para mim, ficou a lição: todas as nossas grandes dúvidas metafísicas — sobre a natureza do ser, a relação entre espírito e matéria, o sofrimento — talvez sejam, no fundo, variações sofisticadas da mesma pergunta demasiadamente humana. E é bom lembrar, diante de dogmas e certezas, que até o Salvador do mundo, em algum momento de sua missão, deve ter dito: “Esperem um pouco, já volto.” A análise, assim como a pergunta de uma criança de quase quatro anos, começa sempre nesse “já volto” — no ponto onde o sublime não tem escolha senão negociar com o seu cólon.

ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC.

FONTE/CRÉDITOS: Felipe De Castro
Comentários:
ContextoSC

Publicado por:

ContextoSC

O ContextoSC nasceu com a missão de levar informação de qualidade, imparcial e acessível para todos. Nossa equipe busca apurar os fatos com responsabilidade, sempre priorizando a transparência e o compromisso com a verdade.

Saiba Mais
WhatsApp ContextoSC
Envie sua mensagem, responderemos assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR