O Remédio Que Não Está na Receita
Durante anos convivi com um problema no estômago. Como muitas questões de saúde que parecem administráveis, ele ia e voltava, sempre dando sinais de que algo precisava mudar, embora eu insistisse em acreditar que bastaria tratá-lo quando surgisse. Decidi procurar um médico. Fui atendido por um profissional extremamente simpático e sorridente. Prescreveu medicamentos, recomendou alguns cuidados e transmitiu tranquilidade. Saí da consulta confiante, certo de que estava tudo sob controle. Com o passar dos dias, entretanto, a rotina se impôs. Os compromissos se acumularam, as preocupações ocuparam espaço e, silenciosamente, os velhos hábitos voltaram a fazer parte do cotidiano. O tratamento foi seguido apenas parcialmente e o problema permaneceu, discreto, aguardando o momento de se manifestar novamente. Esse momento chegou durante uma viagem, quando o mal-estar retornou com intensidade. Diante da situação, procurei outro profissional. O segundo médico não possuía o sorriso fácil do primeiro. Sua postura era séria, quase austera à primeira vista. A impressão inicial não foi acolhedora. Ainda assim, sua conduta revelou algo que frequentemente falta nas relações humanas: clareza. Ele explicou que os medicamentos ajudariam, mas afirmou com firmeza que nenhum tratamento seria eficaz sem uma mudança real de hábitos. Não houve rodeios, nem tentativas de suavizar a mensagem. Houve respeito, objetividade e responsabilidade. Ao sair daquela consulta, percebi que havia recebido não apenas uma orientação médica, mas uma lição sobre comunicação.
A comunicação assertiva não se constrói para agradar momentaneamente. Ela existe para produzir compreensão e, quando necessário, provocar transformação. Trata-se da capacidade de transmitir uma mensagem com honestidade, equilíbrio e segurança, sem agressividade, mas também sem omissões que comprometam a verdade. É uma forma de comunicação que exige coragem, tanto de quem fala quanto de quem escuta. Em muitos ambientes, especialmente nos espaços coletivos e profissionais, observa-se uma tendência perigosa de substituir clareza por conveniência. Evitam-se posicionamentos firmes para não gerar desconforto imediato. Entretanto, a ausência de objetividade costuma gerar conflitos maiores no futuro. Problemas não desaparecem quando são ignorados; apenas se fortalecem no silêncio. A comunicação assertiva estabelece limites, define responsabilidades e orienta decisões com transparência. Ela não é autoritária, tampouco permissiva. É, acima de tudo, madura. Pessoas e instituições que se comunicam com assertividade reduzem ruídos, fortalecem relações e criam ambientes mais seguros e previsíveis. A experiência pessoal mostrou que, muitas vezes, buscamos mensagens que nos tragam conforto, quando na realidade precisamos de mensagens que nos conduzam ao crescimento. A diferença entre permanecer no mesmo lugar e avançar, frequentemente, está na qualidade da comunicação que recebemos e, principalmente, na que escolhemos praticar.
Transformações relevantes raramente acontecem apenas por orientação técnica ou boas intenções. Elas surgem quando a verdade é apresentada com clareza suficiente para gerar reflexão e responsabilidade. Em diversas áreas da vida, o maior avanço não está no remédio prescrito, mas na mensagem que nos faz compreender que a mudança depende, inevitavelmente, de nós.
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