O CaFé Esfriou
Não vejo mais tanta gente lendo Café com Deus Pai. Não sei se é por causa do valor do café — porque, convenhamos, o pacote de 250 gramas já não é o que era, e há quem jure que a moagem mudou — ou se é porque o Pai, com o tempo, foi ficando ocupado demais para atender tanta consulta. Talvez as pessoas tenham descoberto que a conversa com o divino, como a conversa com o analista, exige mais do que quinze minutos por dia e uma caneta marca-texto. Ou talvez o café, de fato, tenha esfriado.
O fenômeno é curioso. Durante anos, o livro foi um fenômeno de vendas. Capa com xícara fumegante, título que prometia intimidade e aconchego, um manual de como ter uma conversa diária com Deus. Não era um livro teológico, não era um livro filosófico, era um livro de produtividade espiritual: sete minutos por dia e você estaria em dia com o Criador. Era a autoajuda vestida de oração, o café como metáfora de acolhimento, o Pai como a figura que nunca falta ao encontro marcado.
Pois bem. O café esfriou. As listas de mais vendidos agora são ocupadas por outra coisa. Romances nórdicos, livros de receitas vegetarianas, biografias de coach que prometem mudar sua vida em 30 dias (o que, convenhamos, é mais ambicioso que sete minutos com Deus, embora não necessariamente mais eficaz.)
Não quero fazer uma análise de mercado. Sou psicanalista, não economista. Sou pago para ouvir o que as pessoas não dizem, não para calcular tiragens e margens de lucro. Mas, como cidadão que passa por livrarias e observa vitrines com a atenção de um etólogo estudando um habitat, percebi o sumiço. E, como bom neurótico, comecei a formular teorias.
A primeira teoria é que as pessoas descobriram que a intimidade com Deus não é um produto de prateleira. A metáfora é enganosa: o café é quente, a conversa é fluida, a xícara é aconchegante. Mas e quando a conversa não flui? E quando Deus parece não estar ouvindo? O livro não ensina a lidar com o silêncio, não ensina a suportar a ausência. Ensina a preencher, a programar, a consumir. E o consumidor, talvez, tenha finalmente percebido que não se consome o infinito.
A segunda teoria é mais cínica e, portanto, mais verossímil: as pessoas enjoaram. Todo best-seller tem prazo de validade. A mensagem, por mais bonita que seja, se repete, e a repetição, como todo analista sabe, é o caminho mais curto para o tédio. O café virou rotina. A rotina virou obrigação. A obrigação virou culpa. E a culpa, no fim das contas, vende menos que o café.
A terceira teoria, que guardo para as noites de insônia, é que Deus talvez tenha mudado de endereço. Não sei para onde. Talvez esteja numa conversa de bar, num silêncio de elevador, no olhar de alguém que não tem nada a ver com livros ou café. Talvez tenha se cansado da fama. Ou talvez só esteja tomando café em outro lugar, com outras pessoas, esperando que alguém perceba.
Não tenho uma conclusão elegante para este texto. A psicanálise não oferece respostas para o sumiço de best-sellers. Oferece apenas uma pergunta: o que você esperava encontrar no café que não encontrou? O que estava procurando quando comprou o livro, quando leu o primeiro capítulo, quando sublinhou a primeira frase? E, principalmente, o que aconteceu quando percebeu que o café, como todas as coisas do mundo, não se aquece sozinho?
O café esfriou. Mas a xícara, essa, ainda está aí.
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