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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

Psiquiatria e psicanálise: a união necessária entre o remédio e a palavra

🤝 Especialistas defendem que a integração entre o tratamento químico e a escuta analítica é o caminho mais eficaz para tratar o sofrimento humano

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Psiquiatria e psicanálise: a união necessária entre o remédio e a palavra
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A CAIXA DE FERRAMENTAS

Tenho um amigo psiquiatra. Aliás, tenho vários — o que é bom, porque psiquiatras são ótimos para tirar dúvidas sobre medicamentos e também para emprestar dinheiro em emergências, já que são acostumados a lidar com crises. Mas este, em especial, é daqueles que frequentam livrarias, que perguntam sobre os pacientes pelo nome, que não reduzem a angústia a uma receita. Um dia, depois de um café em que discutimos um caso complicado — ele falando de neurotransmissores, eu falando de conflitos inconscientes, ambos falando da mesma pessoa sem parecer — ele me disse uma coisa que nunca esqueci: "Você mexe onde eu não chego. E eu mexo onde você não chega. O problema é quando acham que a gente está competindo."

A frase me pegou. Porque, de fato, há uma competição histórica entre psicanálise e psiquiatria. Freud era médico, mas os psicanalistas, durante décadas, fizeram questão de se distinguir dos "meros prescritores". Os psiquiatras, por sua vez, olhavam para o divã com desconfiança: "Muita conversa, pouca ação." E os pacientes ficavam no meio, divididos entre se entender ou se medicar, como se fosse preciso escolher um lado.

Ocorre que a vida psíquica não é uma eleição. Não se vota entre significado e sintoma. A gente tem os dois, ao mesmo tempo, o tempo todo. E a clínica, quando funciona bem, é justamente o lugar onde essas duas vertentes se encontram.

Conheço uma paciente que chegou ao consultório com um diagnóstico de depressão grave. Fazia uso de dois antidepressivos, tinha insônia, não saía de casa há meses. A psiquiatra, uma profissional brilhante, já havia estabilizado o quadro: a paciente não pensava mais em morte, conseguia tomar banho sozinha, coisas que antes eram impossíveis. Mas algo ainda não andava. Ela vinha para as sessões, ficava em silêncio, depois dizia: "Não tenho motivo para estar assim. Minha vida é boa." O que ela não sabia, e levou meses para descobrir, era que a depressão tinha começado exatamente quando o filho mais novo saiu de casa. E que ela, que passara vinte anos se definindo como mãe, não sabia mais quem era sem aquela função. A medicação salvou a vida dela. A análise, aos poucos, devolveu uma vida que valesse a pena ser vivida.

Não é uma história de superação heroica. É uma história de complementaridade. A psiquiatra cuidou do corpo químico, do sono, da urgência. Eu cuidei do corpo simbólico, da narrativa, do tempo. Nenhuma das duas coisas sozinha teria funcionado. Juntas, funcionaram.

Já vi o contrário também. Pacientes que chegam com diagnósticos pesados, cheios de remédios na bolsa, e que só melhoram quando alguém tem a coragem de dizer: "Talvez esse remédio não seja mais necessário." Ou: "Talvez a dose esteja alta demais para o que você está vivendo agora." O bom psiquiatra não é aquele que receita sempre mais. É aquele que sabe quando reduzir, quando suspender, quando confiar que a palavra já fez o suficiente.

E o bom psicanalista não é aquele que ignora a farmacologia. É aquele que sabe quando dizer: "Isso que você está sentindo pode não ser só angústia. Pode ser química. Vamos conversar com seu médico." Não há vergonha nisso. Há, isso sim, honestidade.

O que me encanta no meu amigo psiquiatra é que ele nunca tratou a psicanálise como concorrente. Uma vez, num caso difícil de um paciente com transtorno obsessivo, ele me ligou: "A medicação tirou os rituais, mas ele continua com aquela angústia paralisante. O que você acha que está por trás?" Passamos uma hora no telefone, falando de culpa, de infância, de um pai rígido que nunca dava o braço a torcer. Ele ajustou a dose. Eu ajustei a escuta. O paciente melhorou.

Não é poesia. É clínica.

A divisão entre quem cuida da mente e quem cuida do cérebro é artificial. O cérebro é o órgão da mente. A mente é o que o cérebro faz quando ninguém está olhando. Separar os dois é como separar o fogo da brasa. Dá para fazer, tecnicamente. Mas o que sobra é cinza.

Tenho pensado que a maior contribuição da psicanálise para a psiquiatria talvez seja a paciência. O tempo de deixar o sintoma falar antes de calá-lo. O tempo de perguntar "o que isso quer dizer" antes de perguntar "como fazemos para parar". E a maior contribuição da psiquiatria para a psicanálise talvez seja a humildade. Saber que há sofrimentos que não se resolvem só na palavra. Que há corpos que precisam de outras intervenções. Que o divã é sagrado, mas não é tudo.

Meu amigo psiquiatra tem um jeito que admiro: quando um paciente seu começa análise, ele não some. Pergunta como vai, se interessa, ajusta o que precisa. E quando um meu paciente precisa de avaliação psiquiátrica, sei que posso indicá-lo sem medo. Não porque ele vai resolver tudo — ninguém resolve tudo —, mas porque ele vai somar. E somar, na clínica, já é muito.

Uma vez, numa conferência, alguém perguntou a um psicanalista famoso o que ele achava dos remédios psiquiátricos. Ele respondeu, com aquela elegância de quem sabe que vai irritar metade da plateia: "Acho que são ótimos para dar condições de o paciente se sentar no divã." Provocação, sim. Mas também verdade. Quantas pessoas não conseguem nem entrar numa sala de análise porque a angústia é tanta que não permite sentar, respirar, falar? O remédio, nesses casos, não é muleta. É ponte.

E a psicanálise, por sua vez, é a ponte de volta para a vida que faz sentido. Não aquela vida de autoajuda, de metas e propósitos, mas aquela vida mais modesta e mais difícil: a vida que a gente consegue olhar no espelho sem desviar o olhar.

No fundo, psiquiatria e psicanálise lidam com a mesma coisa: o sofrimento humano. Só que uma olha de fora, a outra de dentro. Uma mexe na química, a outra mexe na biografia. Uma acalma o corpo para que a mente possa falar; a outra dá voz para que o corpo não precise gritar.

Então, caro leitor, se você toma remédio, não se sinta menos em análise. Se você está em análise, não se sinta menos por tomar remédio. O que importa não é a ferramenta. É o que se constrói com ela. E às vezes, para levantar uma casa, são necessários muitos ofícios. O pedreiro, o arquiteto, o eletricista. Cada um com sua caixa de ferramentas. Cada um indispensável.

No meu divã, tenho uma caixa de ferramentas simbólicas. No consultório do meu amigo, uma caixa de ferramentas químicas. De vez em quando, a gente troca figurinhas. E, juntos, a gente tenta ajudar as pessoas a construírem uma vida que não desabe no primeiro vento.

Não é pouca coisa.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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