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Quinta-feira, 13 de Agosto 2026
Filipe De Castro

Psicanálise explica os sintomas e repetições na vida amorosa

Medo do abandono, escolhas inconscientes e busca por padrões conhecidos desafiam a construção de relacionamentos saudáveis

ContextoSC
Por ContextoSC
Psicanálise explica os sintomas e repetições na vida amorosa
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PSICOPATOLOGIA DA VIDA AMOROSA

Todo mundo tem uma teoria sobre o amor. A maioria é ruim. A maioria foi herdada de novelas, de músicas sertanejas, de filmes onde os personagens se encontram na chuva e isso resolve tudo. A psicanálise, como não poderia deixar de ser, tem uma teoria diferente: mais cinzenta, mais desconfortável, e provavelmente mais perto da verdade. A teoria é a seguinte: o amor é uma formação de compromisso entre o desejo e o medo. A gente ama, mas também foge. A gente quer, mas também desiste. A gente se aproxima, mas também sabota. A psicopatologia da vida amorosa é o nome disso: o conjunto de sintomas que a gente desenvolve para não ter que encarar o amor de frente.

O amor, ao contrário do que dizem os cartões de Dia dos Namorados, não é um estado de plenitude. É um campo minado. Toda relação amorosa reativa feridas antigas, desenterra medos da infância, coloca em cena a questão mais fundamental da existência: vou ser abandonado? Vou ser amado de verdade? Vou ser visto como sou ou como projetam que eu seja? Quem entra num relacionamento sem se perguntar isso está, na verdade, em estado de negação. E negação, como a psicanálise ensina, é o primeiro passo para o desastre.

Conheço um homem que só se apaixona por mulheres que não estão disponíveis. Já namorou uma casada, uma que morava em outro país, uma que disse explicitamente que não queria compromisso. Cada vez que uma delas, por um milagre improvável, se tornava disponível, ele perdia o interesse. "Não sei o que acontece", dizia. "Quando elas querem, eu não quero mais." A psicanálise explicaria isso com uma palavra: fobia. Ele não tem medo do amor. Tem medo do que o amor exige: presença, constância, vulnerabilidade. Então ele escolhe, inconscientemente, objetos que garantem a frustração. Assim, ele pode reclamar que o amor não dá certo sem ter que correr o risco de que dê.

Conheço uma mulher que só se sente amada quando sofre. Relacionamentos conturbados, brigas frequentes, términos e reconciliações. O afeto tranquilo a assusta. "Se não tem briga, é porque ele não liga", dizia. Freud chamaria isso de masoquismo moral. Winnicott chamaria de falso self. Eu chamo de cansaço. Porque viver assim é como estar sempre na corda bamba, esperando o tombo que confirma que o amor é, sim, uma coisa dolorosa e que você estava certo desde o início.

Há também os que amam o amor, mas não a pessoa. São aqueles que se apaixonam pela ideia de estar apaixonado. Pela intensidade, pela novidade, pela promessa de que dessa vez vai ser diferente. Quando a relação se estabiliza, quando o cotidiano bate à porta, eles perdem o interesse. Não é que a pessoa seja menos interessante. É que a fantasia, essa sim, era o objeto de desejo. E a fantasia não sobrevive à rotina.

A psicopatologia da vida amorosa inclui ainda os que escolhem sempre o mesmo tipo de parceiro. A mesma dinâmica, a mesma neurose, o mesmo desfecho. "Por que eu sempre me apaixono por gente assim?" A resposta é: porque você reconhece ali uma figura familiar. O inconsciente não busca o novo. Busca o conhecido. Mesmo que o conhecido seja doloroso. É mais confortável repetir o erro conhecido do que arriscar o acerto desconhecido.

Não é à toa que Freud tenha dito, em algum lugar, que o amor é o sintoma de uma neurose. Não porque o amor seja doença, mas porque ele coloca em cena aquilo que a gente já trazia de antes. A escolha amorosa é sempre uma repetição. A gente ama quem nos lembra, de alguma forma, as primeiras figuras de amor da nossa vida: com seus defeitos, suas ausências, suas promessas não cumpridas. A terapia, nesse sentido, é o lugar onde a gente aprende a amar sem repetir o roteiro.

E o que seria o amor saudável, então? Não um ideal romântico de completude. Seria a capacidade de escolher, mesmo sabendo que vai errar. De se comprometer, mesmo sabendo que pode ser abandonado. De se mostrar, mesmo sabendo que pode não ser aceito. É um ato de coragem. Não o ato heroico dos filmes, mas um ato cotidiano, feito de pequenas renúncias e pequenas apostas.

Woody Allen, personagem de si mesmo, disse uma vez: "O coração quer o que quer. E o que ele quer, muitas vezes, é um problema." A psicanálise não resolve o problema. Ela apenas ajuda a entender por que você insiste em escolher o mesmo tipo de problema. E, com sorte, a escolher um problema diferente na próxima vez.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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