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Filipe De Castro

📰 A Família Addams e a psicanálise do amor: por que Gomez e Morticia ainda nos fascinam?

📌 Artigo analisa como o casal subverte a lógica da 'mulher útil' nos casamentos contemporâneos e mantém viva a vitalidade erótica e a admiração

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📰 A Família Addams e a psicanálise do amor: por que Gomez e Morticia ainda nos fascinam?
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A Família Addams e a Psicanálise do Amor: por que Gomez e Morticia ainda nos fascinam?
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Morticia Addams e a Psicanálise da Feminilidade Não Domesticada

 

O Casamento Como Utilidade: uma leitura psicanalítica sobre desejo, admiração e a fantasia do amor absoluto

Há algo de profundamente estranho e revelador na forma como muitos homens falam sobre suas esposas.
Com frequência, os elogios dirigidos às mulheres em relações heterossexuais estáveis não recaem sobre quem elas são, mas sobre aquilo que oferecem: “ela me apoia”, “é uma ótima mãe”, “cuida de tudo”, “me ajudou a crescer”, “está comigo em todos os momentos”.

São elogios socialmente aceitos, até vistos como provas de amor. Mas, sob uma lente psicanalítica, talvez revelem outra coisa: a transformação da mulher em função.

Ela deixa de ocupar o lugar de sujeito desejante para assumir o papel de estrutura emocional, doméstica e simbólica do homem.

E talvez seja exatamente por isso que Gomez e Morticia Addams causem tanto fascínio.

O casal Addams como ruptura simbólica

A Família Addams sempre foi apresentada como sátira. Não apenas do terror gótico, mas também das normas familiares tradicionais. No entanto, o aspecto mais subversivo da obra talvez esteja no casamento entre Gomez e Morticia.

Porque eles parecem inverter uma lógica muito comum nos relacionamentos contemporâneos: a centralidade masculina.

Gomez não ama Morticia apenas pelaquilo que ela faz por ele.
Ele a contempla.

Ele a deseja mesmo após anos de convivência.
Admira seus gestos, sua presença, sua estética, sua inteligência, sua excentricidade. Morticia não é reduzida à maternidade, ao cuidado ou à utilidade emocional.

Ela permanece objeto de fascínio.

Na psicanálise, o desejo depende justamente disso: da preservação da alteridade. Deseja-se aquilo que não foi totalmente capturado pela lógica da posse e da função.

Talvez muitos relacionamentos fracassem não pela ausência de amor, mas pela morte da admiração.

A mulher útil e a mulher desejada

Existe uma diferença brutal entre ser necessária e ser desejada.

Muitas mulheres tornam-se indispensáveis dentro de um casamento, organizam a vida emocional da casa, sustentam afetivamente o parceiro, administram filhos, rotina e conflitos, mas deixam de ser percebidas como sujeitos eróticos.

A partir desse ponto, o amor passa a operar sob uma lógica quase materna.

O homem elogia a mulher como se agradecesse um serviço psíquico prestado. E isso aparece até na linguagem:

“Ela cuida tão bem de mim.”
“Ela me salvou.”
“Sem ela eu não seria nada.”

À primeira vista parece romântico. Mas há algo infantil nisso. A mulher é convertida em continente emocional, não em objeto de desejo.

Freud já apontava que muitos homens encontram dificuldade em conciliar amor e erotismo na mesma figura feminina. A clássica divisão entre “a mulher respeitável” e “a mulher desejável” ainda persiste, mesmo de formas mais sofisticadas.

Quando a esposa passa a ocupar exclusivamente o lugar da estabilidade, da maternidade e do cuidado, o desejo frequentemente se desloca para fora da relação ou desaparece.

O casamento como luto da liberdade masculina

Outro ponto curioso é como muitos homens falam do casamento como renúncia.

Piadas sobre “prisão”, perda da liberdade ou “fim da vida” são tão normalizadas que raramente causam estranhamento. Existe quase uma necessidade social de demonstrar que o homem sofreu uma espécie de sacrifício ao abandonar a vida de solteiro.

Na prática, isso produz relações em que a mulher passa a orbitar o homem e suas necessidades, enquanto ele tenta preservar ao máximo a própria individualidade anterior ao vínculo.

A psicanálise entende o amor como experiência inevitável de perda narcísica. Amar exige descentralização do eu. Exige reconhecer o outro como alguém que também possui desejos próprios, zonas inacessíveis, vontades independentes.

Mas muitos sujeitos entram em relações sem querer abrir mão do próprio narcisismo. Querem ser amados sem precisar deslocar o centro de si mesmos.

Gomez Addams parece justamente o oposto disso.
Ele não disputa protagonismo com Morticia. Ele a exalta.

E talvez isso seja lido como exagero justamente porque estamos acostumados com relações onde a admiração masculina diminui com o tempo.

Morticia e a recusa da feminilidade sacrificial

Morticia também rompe outra expectativa fundamental: ela não performa a esposa abnegada.

Ela não existe apenas como mãe. Não tenta parecer dócil, acessível ou domesticada. Sua feminilidade não é construída para tranquilizar ninguém.

Isso é importante porque, historicamente, espera-se que mulheres em relacionamentos longos abandonem partes de si para sustentar a estabilidade afetiva do outro. Como se o amor exigisse apagamento.

Morticia, ao contrário, permanece inteira.

Ela continua estranha, vaidosa, teatral, sombria, desejante.

E talvez seja exatamente isso que mantém o desejo vivo dentro da relação. Ela não se dissolve na função de esposa.

Lacan dizia que o amor é “dar o que não se tem”. Ou seja: amar implica reconhecer a própria falta, e não transformar o outro em objeto de completude ou serviço emocional permanente.

Quando um relacionamento deixa de operar pela lógica do desejo e passa a funcionar apenas pela utilidade, instala-se uma dinâmica silenciosamente melancólica. O casal continua junto, mas a vitalidade erótica desaparece.

O verdadeiro escândalo

Talvez o verdadeiro escândalo em Gomez e Morticia não seja o exagero romântico.

Talvez seja o fato de que eles parecem continuar escolhendo um ao outro.

Num mundo onde muitos relacionamentos se sustentam mais por função do que por desejo, ver um homem profundamente encantado pela subjetividade da própria esposa soa quase fantasioso.

E talvez seja justamente por isso que tanta gente se emociona com eles.

Porque, no fundo, quase todos querem ser vistos além daquilo que oferecem.

 

Julia Mendes - 2026

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Crédito de imagem: Will Rodrigues (@ofotograrte)

Julia Mendes é estudante de Psicologia, com especial interesse em Psicanálise e suas interfaces com a arte, a cultura e a subjetividade humana. Paralelamente à trajetória acadêmica, dedica-se à pintura a óleo, desenvolvendo obras de inspiração barroca influenciadas pela estética de Caravaggio. Sua produção artística explora temas psicológicos, mitológicos e existenciais, unindo a linguagem da pintura clássica às reflexões da psicanálise contemporânea.

ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC. 

FONTE/CRÉDITOS: Julia Mendes
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