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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🛋️ Psicanálise alerta para atrofia da fantasia diante do excesso de pornografia

📄 Consumo massivo de imagens explícitas substitui a construção ativa do desejo por um catálogo de cenas prontas, reduzindo a potência psíquica

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Por ContextoSC
🛋️ Psicanálise alerta para atrofia da fantasia diante do excesso de pornografia
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PORNOGRAFIA E O EMPOBRECIMENTO DO IMAGINÁRIO SEXUAL 

O pornô, antes de ser indústria, foi literatura. No século XVIII, na França, os libertinos escreviam romances eróticos que circulavam em edições clandestinas, lidos à luz de velas, muitas vezes em voz alta, entre duas ou mais pessoas. Não havia imagem. Só palavra. E a palavra, ao contrário da imagem, não mostra. Ela sugere. E ao sugerir, convoca a imaginação do leitor a preencher os espaços vazios. Cada leitor via, na sua mente, uma cena diferente. Cada leitor completava a fantasia com o seu próprio desejo. O erotismo, ali, era uma construção compartilhada entre o texto e quem o lia.

Não estou dizendo que era melhor. Estou dizendo que era diferente. E que essa diferença talvez diga algo sobre o que a gente perdeu.

A indústria pornográfica contemporânea é uma máquina de produzir imagens. Milhares de vídeos, todos os gêneros, todas as categorias, todos os fetiches catalogados, etiquetados, disponíveis a um clique. O problema não é a quantidade. O problema é que a imagem, ao contrário da palavra, é concreta demais. Ela não deixa espaço para a fantasia. Ela já está ali, inteira, definitiva. O corpo é aquele. A posição é aquela. O ângulo é aquele. Não há o que imaginar. Só há o que consumir.

O psicanalista francês Jacques Lacan dizia que o desejo é estruturalmente insatisfeito. Ele se alimenta de falta, de vazio, de algo que não está ali. A imagem pornográfica, ao contrário, oferece tudo. Ela não deixa falta. Ela preenche. E ao preencher, ela mata o desejo ou, pelo menos, mata a sua dimensão imaginativa.

Não faço uma cruzada contra o uso de pornografia. Parece-me vitoriano demais, além de inútil. A indústria não vai acabar porque alguns psicanalistas resolveram chiar. O que me interessa é outra coisa: como o consumo massivo de imagens explícitas tem afetado a capacidade das pessoas de fantasiar por conta própria. Tenho ouvido, no consultório, relatos que me preocupam menos pelo conteúdo e mais pela forma. Homens e mulheres que não conseguem se excitar sem um estímulo visual. Que precisam do vídeo, da tela, da imagem em movimento. Que perderam a capacidade de fechar os olhos e criar uma cena na própria mente. O imaginário, que deveria ser o território mais íntimo e pessoal do desejo, tornou-se um catálogo de cenas prontas.

Há uma diferença fundamental entre imaginar e assistir. Imaginar é ativo. Assistir é passivo. Imaginar exige que a gente se envolva, que a gente invista, que a gente coloque algo de si na cena. Assistir exige apenas que a gente olhe. O problema não é a passividade em si — às vezes a passividade é bem-vinda. O problema é quando ela se torna o único modo possível de acesso ao prazer.

O romance erótico do século XVIII exigia paciência. Era preciso ler, interpretar, deixar as imagens se formarem... O vídeo pornô, não. Ele oferece o produto pronto. E a mente, como todo órgão, atrofia o que não usa. Se a gente não exercita a fantasia, a fantasia definha. E aí, quando a tela desliga, sobra o quê?

Tenho pacientes que me dizem: "Eu não consigo mais imaginar nada. Preciso do vídeo." E isso não é sobre moral. É sobre potência psíquica. A capacidade de fantasiar é uma das ferramentas mais preciosas que o ser humano tem para lidar com a realidade. É ela que nos permite suportar a espera, a frustração, a falta. É ela que nos permite desejar o que não está ali. Quando essa capacidade se atrofia, a gente fica refém do que está disponível. E o que está disponível, muitas vezes, é pobre.

Há uma ironia nisso tudo. O pornô nasceu como literatura erótica, gênero que exigia imaginação. Hoje, ele é, em grande medida, o assassino da imaginação. Não por maldade, mas por excesso de oferta. Quanto mais imagem, menos espaço para a fantasia. Quanto mais concreto, menos simbólico.

Não estou sugerindo que a gente volte aos romances do Marquês de Sade à luz de velas. Estou sugerindo que talvez seja hora de perguntar: o que a gente tem perdido, na cama e na cabeça, com essa dieta pesada de imagens prontas? E, mais importante: ainda dá tempo de reaprender a fantasiar?

A psicanálise, como ofício, é um treino de imaginação. É aprender a deixar as imagens virem, sem censura, sem pressa. É redescobrir que a mente, quando não é atropelada pela tela, é capaz de criar cenários muito mais interessantes do que qualquer vídeo. Não porque a mente seja melhor: às vezes é bem pior. Mas porque é nossa. E o que é nosso, ainda que imperfeito, ainda que estranho, ainda que atravessado de culpas e vergonhas, tem uma qualidade que o vídeo nunca terá: é vivo.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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