PEQUENOS RITUAIS PARA TERÇA-FEIRA GORDA
Ou: O que aprendi sobre sobrevivência lendo Caio Fernando Abreu num Carnaval sem fantasia
Hoje é Terça-Feira Gorda. Não, não estou no meio de um bloco, espremido entre corpos suados e purpurina. Estou em casa, tomando café, e resolvi reler um conto de Caio Fernando Abreu que leva exatamente este nome: "Terça-Feira Gorda". Há certas leituras que são pequenos rituais. Esta é uma delas.
O conto, para quem não conhece, é uma joia terrível e luminosa. Nele, um homem encontra outro num baile de Carnaval. Dançam, se desejam, vão para a praia, fazem amor sob as estrelas e são brutalmente espancados por um grupo. O narrador foge sozinho pela areia. No final, três imagens se sobrepõem em sua mente: o corpo do amante sambando em sua direção, as Plêiades no céu, e "a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos".
Li isso pela primeira vez aos vinte anos. Fiquei dias com o figo na cabeça. Hoje, relendo numa manhã de Carnaval quieta, penso em outra coisa: nos pequenos rituais que nos restam quando a festa acaba ou quando a violência chega.
Porque o conto de Caio, publicado em 1982, é sobre muitas coisas: desejo, repressão, homofobia, ditadura, a fragilidade do amor num mundo hostil. Mas é também, secretamente, sobre rituais. O ritual do encontro: a dança, os corpos que se aproximam, a mão que estende a pílula, o espelho jogado ao mar para Iemanjá. O ritual do sexo na areia. O ritual, até, da agressão — porque até a violência tem sua coreografia macabra, seus gritos ensaiados ("ai-ai, olha as loucas"), sua plateia.
E depois, quando tudo se desfaz, restam os rituais mínimos da sobrevivência: correr, respirar, lembrar. Sobrepor imagens na mente para que a dor não ocupe todo o espaço.
Penso nos meus próprios rituais. Nada tão poético quanto jogar um espelho no mar para Iemanjá. Coisas bobas: o café coado na mesma garrafa térmica desde 2019, a caneta específica que uso para anotar sonhos, o trajeto de sempre até o consultório, a música que toca enquanto organizo os livros na estante. Pequenas âncoras. Gestos que repito não por tique, mas porque me seguram aqui.
A psicanálise tem um nome bonito para isso: rituais de passagem. São os gestos que marcam a transição entre um estado e outro, da rua para casa, do trabalho para o descanso, da solidão para o encontro. Freud falava do fort-da: a criança que joga o carretel para longe e o puxa de volta, encenando a ausência e o retorno da mãe. É um ritual. Um jeito de dominar, pelo símbolo, aquilo que nos escapa.
No Carnaval, os rituais são coletivos, barulhentos, expansivos. Fantasias, marchinhas, blocos. A cidade inteira vira um grande fort-da: perde-se o juízo, ganha-se a folia. Mas há também os rituais silenciosos, os que fazemos sozinhos, sem plateia. E são estes, suspeito, que nos salvam nos dias em que o figo ameaça cair.
Conheço uma paciente que, depois de um término difícil, passou a acender uma vela todas as noites, por exatos sete minutos. Ela não é religiosa. Era apenas um gesto: aqui, neste instante, eu existo para mim mesma. Conheço outro que, toda manhã, escreve três palavras num caderno. Qualquer palavra. "Café, nuvem, cansaço". Um ritual de presença. Um modo de dizer: eu estive aqui hoje.
Caio Fernando Abreu, que era homem de rituais — místico, leitor de mapas astrais, amante dos pequenos signos —, sabia disso. Seus contos estão cheios desses gestos mínimos: um diálogo que não leva a lugar nenhum, uma pergunta sem resposta, um figo que cai . Não é derrotismo. É atenção. É o jeito que a literatura encontra de dizer: presta atenção, porque a vida é feita disso, desses pequenos fragmentos que a gente junta para formar um chão.
Hoje, Terça-Feira Gorda de 2026, não estou na avenida. Estou aqui, com minha xícara e meu conto velho de guerra. Daqui a pouco, um paciente chega. Vai deitar no divã e falar de seus rituais, de seus encontros, de seus figos prestes a cair. Eu ouvirei. E pensarei, talvez, naquele outro ritual antigo: o de dois corpos que dançam, se aproximam, brilham — mesmo sabendo que, lá fora, há sempre alguém pronto para gritar "ai-ai".
O que nos resta, então?
O café. A vela de sete minutos. As três palavras no caderno. O espelho jogado ao mar. A lembrança do corpo que sambou bonito na nossa direção. Os pequenos rituais. É com eles que a gente vai vivendo. É com eles que a gente sobrevive à Terça-Feira Gorda e a todas as outras terças também.
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