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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

👤 Otelo no divã: o ciúme como um monstro que se alimenta de si mesmo

📱 A relação entre a tragédia de Shakespeare e as camadas do ciúme propostas por Freud revela que a desconfiança fala mais sobre o ciumento do que sobre o parceiro

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👤 Otelo no divã: o ciúme como um monstro que se alimenta de si mesmo
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OTELO NO DIVÃ: PEQUENO TRATADO SOBRE O CIÚME COMO MONSTRO QUE SE GERA EM SI MESMO

 

Ela chegou ao consultório com os olhos vermelhos e o celular na mão, como quem apresenta uma prova num tribunal. "Olha isso", disse, passando-me o aparelho. Era uma foto do marido conversando com uma colega de trabalho. Nada. Literalmente nada. Um café na copa, dois corpos distantes, expressão neutra. "Você não está vendo?", ela insistiu. "O jeito que ela olha para ele. O jeito que ele permite ser olhado."

Eu via, sim. Via o que sempre se vê nesses casos: não a cena, mas o teatro interno que o ciumento projeta sobre a tela do real. Via, também, que ali estava uma mulher sendo consumida viva por um fogo que ela mesma alimentava. E pensei, como penso sempre diante desses casos: Otelo não morreu. Ele está vivo e mora entre nós.

Shakespeare escreveu, em 1604, a mais precisa anatomia do ciúme que a literatura já produziu. Otelo, o mouro de Veneza, general respeitado, homem de guerra, casado com a bela e fiel Desdêmona, é envenenado gota a gota pelo seu alferes Iago. Não há provas. Apenas insinuações. "Cuidado com o ciúme, meu senhor", diz Iago, com a boca cheia de dentes, "é um monstro que se gera em si mesmo e de si nasce”. Otelo morde a isca. E o monstro, uma vez gerado, devora tudo: a razão, o amor, a própria vida. Ao final, estrangula a mulher inocente e, ao descobrir a verdade, suicida-se.

O que Shakespeare intuiu com gênio é que o ciúme não precisa de causa externa. Ele é autogerado, autossuficiente, um câncer da alma que encontra no real apenas pretextos para se alimentar. Iago não cria o ciúme em Otelo; ele apenas desperta uma potência adormecida, uma disposição para desconfiar que já estava lá, esperando seu momento .

Freud, três séculos depois, colocou esse monstro no divã. Em seu texto de 1922, "Sobre Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na Paranoia e na Homossexualidade", ele propõe que o ciúme não é um sentimento unitário, mas tem três camadas.

A primeira é o ciúme concorrencial (normal): aquele que todos sentimos diante de uma ameaça real. É composto de luto (pela perda possível do objeto amado), de ferida narcísica (o golpe no amor-próprio) e de hostilidade contra o rival. Até aí, estamos no campo do humano, do esperado. O problema começa quando esse ciúme, em vez de ser elaborado, recua para o inconsciente e volta transformado.

A segunda camada é o ciúme projetado. Aqui, a pessoa sente desejos de infidelidade — ou já os praticou — mas não suporta a culpa. Então, projeta esses desejos no parceiro. "Não sou eu quem quer trair; é ela quem me trai." O alívio é imediato: a consciência fica em paz, e o inferno pode continuar. Conheço um paciente que passou anos acusando a mulher de olhar para outros homens. Anos depois, num acesso de sinceridade tardia, confessou: "Na verdade, quem não tirava os olhos das outras era eu." O ciúme era a sombra do seu próprio desejo, projetada na tela do casamento.

A terceira camada, a mais profunda e devastadora, é o ciúme delirante. Freud o relaciona a impulsos homossexuais recalcados. A fórmula, no homem, seria: "Eu não o amo; é ela quem o ama." O ciúme aqui é uma defesa contra uma verdade insuportável: a atração por pessoas do mesmo sexo, transformada em perseguição. É o caso do homem que acusa a mulher de estar interessada em todos os homens, quando, na verdade, o interesse inconsciente é dele.

O que liga Otelo a Freud é a mesma intuição: o ciúme fala mais de quem sente do que de quem o provoca. Otelo não sucumbe porque Iago é convincente; ele sucumbe porque há nele uma ferida aberta; talvez, como alguns leitores sugerem, uma insegurança ligada à sua condição de mouro em Veneza, à diferença racial, à sensação de não merecer inteiramente aquela mulher jovem, bela e branca . O ciúme encontrou ali um terreno fértil. Iago foi apenas o gardener que regou a planta venenosa.

Na clínica, isso se repete todos os dias. O ciumento crônico não é alguém que ama demais; é alguém que desconfia demais de si mesmo. Sua vigilância sobre o outro é a medida exata do seu próprio abismo. Ele não suporta a ideia de ser substituído porque, no fundo, sente-se intrinsecamente substituível. A falta de confiança no outro é apenas a ponta visível de uma falta de confiança em si: um self frágil, que precisa do olhar do outro para existir e, ao menor desvio desse olhar, sente-se aniquilado.

A paciente do início, a do celular e da foto inofensiva, levou meses para poder dizer, entre lágrimas, a frase que realmente importava: "Se ele me trair, eu deixo de existir." O ciúme, para ela, era uma estratégia desesperada de controle sobre o único objeto que dava sentido à sua vida. Perder o marido seria perder-se. A vigilância era a âncora num mar de pavor.

O tratamento do ciúme, em psicanálise, não é sobre "provar" que o outro é fiel. É sobre investigar o que, dentro de si, precisa dessa prova o tempo todo. É desfazer a equação paranoica que liga o olhar alheio à própria existência. É, como no final de Otelo, reconhecer que a mão que mata é a mesma que deveria proteger, mas, ao contrário do mouro, parar antes do estrangulamento.

Freud dizia que o ciúme, quando falta no caráter de um homem, é justo concluir que sucumbiu a um forte recalcamento. Ou seja: mesmo a ausência total de ciúme pode ser sintoma. O equilíbrio, como sempre, está no meio: nem o ciúme delirante que devora, nem a frieza que nada sente. A possibilidade de confiar sem garantias, sabendo que o outro pode falhar, que o amor pode acabar, que a vida é risco e ainda assim escolher ficar.

Shakespeare sabia: o monstro se gera em si mesmo. Freud mostrou de que matéria esse monstro é feito. Nós, analistas, tentamos, a cada sessão, convencê-lo a ir dormir — ou, pelo menos, a não estrangular ninguém enquanto seus donos não aprendem a olhar para o próprio abismo.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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