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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🪞 O peso do narcisismo materno: quando o amor vira controle

🤱 Reflexão sobre a "mão que balança o berço" e o desafio de filhos que buscam existir além do desejo das mães

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🪞 O peso do narcisismo materno: quando o amor vira controle
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A MÃO QUE BALANÇA O BERÇO É A MÃO QUE COMANDA O MUNDO

A frase original é bonita, meio vitoriana, meio poema de ninar. Fala do poder materno, daquela influência silenciosa que molda gerações. Mas, na versão que me interessa, ela tem outro sabor. É a frase dita por uma mãe que não apenas balança o berço, mas também decide a temperatura do quarto, o horário das refeições, a roupa que o filho vai usar, a profissão que ele deve seguir, as mulheres que ele deve amar, os amigos que ele deve ter. A mão que balança o berço é a mesma que nunca larga o osso.

Conheço essa história. Todo mundo conhece. É a mãe que está sempre certa, que sacrificou tudo pelos filhos e não se cansa de lembrar, que tem uma opinião sobre tudo e não admite réplica. É a mãe que, quando o filho toma uma decisão autônoma, suspira como quem vê um erro anunciado. É a mãe que diz "você é o amor da minha vida" e, na mesma frase, "ninguém vai te amar como eu". E o filho, coitado, passa a vida inteira tentando provar que é digno desse amor, sem nunca saber se está sendo ele mesmo ou apenas o personagem que a mãe escreveu.

O narcisismo materno é uma das heranças mais pesadas que uma pessoa pode carregar. Porque a mãe narcísica não vê o filho. Vê um espelho. O filho não é um sujeito com desejos próprios, com uma história que começa antes dela, com um corpo que não pertence a ela. O filho é um prolongamento. Uma extensão. Alguém que existe para confirmar que ela é boa, que ela é capaz, que ela merece ser amada.

E o filho, claro, aprende rápido. Aprende que ser amado é fazer o que a mãe quer. Que a própria vontade é um risco. Que se ele quiser algo diferente, pode perder o amor. E o amor da mãe, na infância, é como o ar que se respira. Sem ele, a gente morre. Então a gente se dobra. A gente se encolhe. A gente aprende a sentir o que ela quer que a gente sinta, a desejar o que ela quer que a gente deseje, a ser o que ela precisa que a gente seja.

Depois, quando a gente cresce, essa estrutura não desmonta sozinha. Ela se reproduz nos relacionamentos, nas escolhas profissionais, na forma como a gente lida com o próprio desejo. O filho da mãe narcísica, quando vira homem, busca mulheres que repitam o mesmo padrão: exigentes, insatisfeitas, que amam com condição. Ou então foge de qualquer intimidade que exija entrega. Porque entregar-se, para ele, é desaparecer.

A mulher, quando filha da mãe narcísica, tem um destino diferente, mas igualmente complicado. Ela aprende que o valor está no que ela faz, não no que ela é. Aprende que precisa ser perfeita para merecer amor. Aprende que o corpo é um território a ser administrado, não habitado. E, muitas vezes, repete o ciclo: vira ela mesma a mãe que exige, que controla, que não larga o osso. Porque é o único modelo que conhece.

O que a psicanálise chama de narcisismo, nesses casos, não é amor-próprio exagerado. É o oposto. É a incapacidade de reconhecer o outro como outro. É a necessidade de que o outro confirme, o tempo todo, que a gente existe. E quando esse outro é um filho, a cobrança é silenciosa, pervasiva, infindável. O filho vira uma espécie de provedor de existência para a mãe. E ele, sem saber, passa a vida tentando pagar uma dívida que não é dele.

Há um momento, na vida de quem teve uma mãe assim, que a gente se pergunta: o que eu realmente quero? E a pergunta, que deveria ser simples, se revela um abismo. Porque, por trás dela, há décadas de respostas ensaiadas, de vontades que não eram suas, de um eu que foi construído para caber num lugar que a mãe desenhou. Descobrir o próprio desejo, depois disso, é um trabalho arqueológico. É desenterrar algo que foi soterrado muito cedo.

Tenho pensado que a saída não é a raiva — embora a raiva seja necessária, pelo menos no começo. A saída é o luto. O luto pela mãe que não se teve. O luto pelo amor incondicional que nunca veio. O luto pelo tempo perdido tentando ser o que não se era. E depois do luto, a reconstrução. Lentamente, sem pressa, a gente vai aprendendo a ocupar o próprio corpo, a própria vontade, a própria vida. Aprendendo que amor não é servidão. Aprendendo que a gente pode querer coisas diferentes das que a mãe queria e que isso não é traição. É crescimento.

A frase original diz que a mão que balança o berço comanda o mundo. E é verdade. Mas o que a gente descobre, depois de um tempo, é que o mundo também pode ser comandado por outras mãos. Pelas nossas. E que soltar o berço, às vezes, é o gesto mais amoroso que a gente pode fazer por si mesmo.

Porque, no fim, a gente não precisa ser o personagem que a mãe escreveu. A gente pode, com trabalho e tempo, escrever a própria história. E a primeira frase dessa história nova, talvez, seja: eu existo fora de você.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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