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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🛋️ O paciente que queria um chefe: a fuga da responsabilidade

Por trás do pedido de conselhos ao analista, esconde-se o desejo de transferir a culpa e o medo de assumir o próprio destino

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🛋️ O paciente que queria um chefe: a fuga da responsabilidade
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O PACIENTE QUE QUERIA UM CHEFE

Ela chegou na primeira sessão com uma lista. Não uma lista de queixas; uma lista de perguntas. "Devo sair do meu emprego? Devo voltar a morar com a minha mãe? Devo continuar com esse namoro? O senhor acha que eu engordo?" Eu olhei para a lista, olhei para ela, e pensei: essa mulher não quer análise. Quer um gerente.

O paciente que quer que o analista decida por ele é um enigma disfarçado de pergunta. Ele parece pedir orientação, conselho, uma luz no fim do túnel. Mas não é isso. Por trás de cada "o que o senhor acha?" há um desejo oculto: o de transferir a responsabilidade. Se o analista diz "larga o emprego" e o novo emprego for pior, a culpa é do analista. Se o analista diz "termina" e a solidão apertar, a culpa é do analista. O paciente, assim, nunca erra. Nunca se arrisca. Nunca ocupa o lugar de sujeito do seu próprio destino. A análise vira uma muleta, e o analista, um para-raios de culpa.

Freud, que viu isso acontecer muitas vezes, chamava esse fenômeno de transferência. O paciente não está perguntando para o analista que está ali na poltrona. Está perguntando para uma figura do passado: um pai autoritário, uma mãe controladora, alguém que, em algum momento, tomou as decisões por ele. A pergunta é um disfarce. O que ele quer, na verdade, é repetir uma relação antiga: a de quem obedece, se submete, e depois culpa o outro.

Conheci um homem, anos atrás, que passou seis meses de análise tentando me fazer decidir se ele devia ou não fazer uma vasectomia. Ele trazia dados, pesquisas, opiniões de amigos, artigos de revista. "O senhor não acha que é a melhor opção?" Eu respondia com outra pergunta: "O que você acha?" Ele suspirava, irritado. Na sétima sessão, explodiu: "O senhor não me ajuda! Não decide nada!" Era o que ele precisava ouvir. A raiva era o sintoma. Por trás da raiva, o medo: medo de escolher, medo de errar, medo de ser dono da própria vida.

O analista que cai nessa armadilha está perdido. Se decide, vira um conselheiro, não um analista. Se não decide, vira um frustrador, e o paciente vai embora. A saída é outra: devolver a pergunta. Não com ironia, não com fuga, mas com uma aposta no desejo do outro. "O que você quer?" "O que você sente sobre isso?" "O que acontece se você decidir sozinho?" São perguntas que parecem simples, mas são as mais difíceis de responder. Porque responder a elas exige que o paciente assuma o lugar que ele passou a vida fugindo: o lugar de quem escolhe e arca com as consequências.

Uma vez, numa supervisão, uma colega mais velha me disse: "Quando o paciente pede um conselho, ele não quer um conselho. Ele quer que você ocupe o lugar do mau objeto. Ele quer te odiar depois." Levei anos para entender a frase. Mas é isso. O paciente que pede uma decisão está, no fundo, pedindo um algoz. Quer alguém para culpar quando a vida der errado. Quer alguém para odiar no lugar de odiar a si mesmo. O analista que aceita o papel está fadado a ser abandonado — ou pior, seguido às cegas.

O que fazer, então? Analisar a pergunta. Não respondê-la. "Por que você está me perguntando isso agora?" "O que você teme que aconteça se decidir sozinho?" "O que você está evitando sentir ao me colocar no lugar de quem decide?" O trabalho não é dar a resposta. O trabalho é mostrar que a pergunta, em si, já é o sintoma.

Lembro de uma paciente que me perguntou, durante meses, se devia ou não ter um filho. Eu devolvia a pergunta. Ela se irritava. Até que um dia, num acesso de sinceridade, disse: "Se o senhor disser sim e der errado, é sua culpa. Se disser não e eu me arrepender, também é sua culpa. Eu só quero alguém para culpar." Foi o momento mais honesto da análise. A partir dali, ela parou de perguntar. Começou a falar do medo. E o medo, afinal, era o que sempre esteve ali, por trás da lista de perguntas.

O paciente que quer que o analista decida por ele não quer uma resposta. Quer um descanso. Quer, por um momento, não ser responsável pela própria vida. O analista que entende isso não se irrita. Não cede. Não foge. Apenas segura a angústia — a sua e a do outro — e espera. Espera que, um dia, o paciente consiga ocupar o lugar que sempre foi seu: o de quem escolhe, erra, acerta, e segue vivendo.

Não é fácil. Mas, convenhamos, se fosse fácil, não precisava de análise.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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