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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🛗 O fim da conversa de elevador: Um sintoma da morte do encontro real

📱 Entre telas e silêncios, estamos perdendo a capacidade de reconhecer a existência do outro sem o filtro do algoritmo

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🛗 O fim da conversa de elevador: Um sintoma da morte do encontro real
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O FIM DA CONVERSA DE ELEVADOR

Houve um tempo em que a conversa de elevador era um gênero reconhecido. Não era boa — nunca foi boa. Mas tinha uma função social clara: preencher o silêncio constrangedor entre dois estranhos que vão subir juntos por quarenta segundos. "Esse elevador é lento." "Pois é." "O sexto andar nunca chega." Era o nada dito com alguma elegância. Hoje, a gente nem finge mais. As pessoas entram no elevador, olham para o celular, e o silêncio é total. Não por timidez. Por ausência de obrigação.

O curioso é que essa economia do fingimento social se espalhou. A gente já não precisa mais daquele esforço mínimo de simulação que, durante séculos, foi chamado de "boa educação". Não se precisa mais perguntar "como vai você?" se não se tem interesse na resposta. Não se precisa mais daquela pausa antes de desligar o telefone. Não se precisa mais da despedida propriamente dita: a gente simplesmente para de responder.

A psicanálise tem uma hipótese para isso. O que chamávamos de civilidade era, no fundo, um reconhecimento da presença do outro. Mesmo que fingido, mesmo que vazio, o ato de perguntar "como vai?" dizia: eu sei que você está aí. Não vou ignorar sua existência. Hoje, com o celular na mão, a gente pode ignorar o outro sem culpa. Porque o outro, na tela, é mais interessante, ou pelo menos mais fácil de gerenciar.

Perdemos algo com isso. Não a conversa de elevador em si; essa ninguém sente falta. Perdemos a obrigação de estar presente. E a presença, mesmo que incômoda, é o que nos lembra que somos seres sociais. Que o mundo não é feito só de telas. Que o outro, com sua pergunta chata e sua necessidade de preencher silêncio, existe.

Tenho pensado que o fim da conversa de elevador é o sintoma de uma morte maior: a morte do espaço público como território de encontro. O encontro, hoje, é agendado. É performático. É produzido. O que sobra é o não encontro: duas pessoas no mesmo cubículo, cada uma em seu mundo, cada uma em seu silêncio. E o silêncio, ao contrário do que se pensa, não une. Separa.

Uma vez, numa palestra, alguém perguntou ao psicanalista francês Jacques-Alain Miller o que ele achava das redes sociais. Ele respondeu: "Elas nos dão a ilusão de estar juntos sem o incômodo de estar perto." O elevador, ao contrário, é o perto sem a ilusão. É o corpo ali, a respiração ali, o cheiro ali. Sem mediação. Sem filtro. É o real do encontro, com todo seu desconforto. E a gente, hoje, não sabe mais o que fazer com o real.

O que me preocupa não é o fim da conversa de elevador. É o que ele anuncia: a gente está perdendo a prática de estar com o outro sem um propósito claro. Sem um like para dar, sem uma mensagem para enviar, sem um roteiro. A gente está desaprendendo o encontro gratuito. E o encontro gratuito, o encontro que não serve para nada, é o terreno onde o afeto cresce.

Claro, a gente pode continuar subindo e descendo em silêncio. Pode continuar olhando para a tela enquanto o outro está ali, a meio metro. Pode continuar fingindo que a solidão é escolha. Mas o preço, como sempre, é pago no corpo. Na falta de ar. Naquela sensação vaga de que algo está faltando, mesmo quando tudo está funcionando.

O elevador vai abrir. Cada um sai para seu lado. O silêncio fica.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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