ContextoSC - Jornalismo Responsável

Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🧠 O dilema das prateleiras: o medo de escolher e o luto das opções

Entre listas intermináveis e abas abertas, o ato de comprar um livro revela nossa angústia diante da finitude do tempo

ContextoSC
Por ContextoSC
🧠 O dilema das prateleiras: o medo de escolher e o luto das opções
Divulgação
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

O MEDO DE ESCOLHER

Tenho uma lista de livros. Não uma lista normal, dessas que cabem num post-it. Tenho um documento do Word com mais de setecentas páginas. São títulos que acumulei ao longo de anos, vindos de referências em outros livros, de dicas de amigos, de notas de rodapé, de obsessões que surgiram numa terça-feira qualquer e nunca mais foram embora. A lista cresce todo mês. Nunca diminui. É uma espécie de biblioteca imaginária que habita o meu computador e me julga em silêncio.

Uma vez por mês, acontece o ritual. Abro várias abas da Amazon. Cada aba é um livro da lista. Olho a capa, leio a sinopse, verifico o número de páginas, a editora, o ano da tradução. Crio critérios que mudam a cada sessão. Dessa vez, vou priorizar livros pequenos, porque os grandes me dão a sensação de que nunca vou terminar. Na próxima, vou priorizar os grandes, porque livros pequenos parecem menos "sério". Depois, vou priorizar autores que eu já conheço, para não correr o risco de perder tempo com um desconhecido. Depois, vou priorizar desconhecidos, porque é preciso sair da zona de conforto. O processo leva três dias. Três dias de abas abertas, de comparações, de angústia. E quando finalmente fecho o pedido, o sentimento não é alívio. É uma ponta de luto. E se eu tivesse escolhido os livros errados?

O psicanalista francês Jacques Lacan dizia que o desejo é o desejo do Outro. Traduzindo: a gente não sabe direito o que quer. A gente quer o que acredita que o outro quer que a gente queira. Na Amazon, isso significa que não estou apenas escolhendo um livro. Estou escolhendo uma versão de mim mesmo. O intelectual que lê teoria crítica. O leitor despretensioso que devora romances. O pesquisador sério que acompanha os lançamentos acadêmicos. Cada livro é um avatar. E escolher um é matar todos os outros.

Freud, que também acumulava livros (embora não sei se chegava a setecentas páginas), escreveu sobre o luto. Não sobre luto de pessoas — sobre o luto das possibilidades. Toda escolha é um luto. Escolher um livro é dizer não a todos os outros. E dizer não dói. Por isso tanta gente prefere não escolher. Deixa na lista. Deixa na aba aberta. Deixa para depois. O depois é confortável porque não exige renúncia. O depois é a promessa de que um dia a gente vai ler tudo, ter tudo, ser tudo.

Claro que não vai.

O que me fascina no meu próprio ritual é a sua inutilidade. Eu sei que não vou ler todos os livros que compro, até porque sou fumante e o tique e taque do relógio soa mais rápido a cada cigarro. Sei que muitos vão ficar na estante, empoeirados, esperando a vez que nunca chega. Sei que a lista de setecentas páginas é, ela mesma, um sintoma: uma forma de adiar o confronto com o fato de que o tempo é finito e a vida é curta demais para ler tudo o que se quer ler. A lista é um cobertor. Me aquece a ideia de que, se um dia eu tivesse tempo infinito, teria ali o cardápio pronto. Mas tempo infinito não existe. E a lista, em vez de me ajudar a escolher, me paralisa.

O medo de escolher não é medo do erro. É medo da perda. Escolher este livro é perder a chance de ter escolhido aquele. E quem garante que este é melhor? Quem garante que não vou me arrepender? A psicanálise diria que ninguém garante. A vida é feita de riscos. E a angústia da escolha é o preço que a gente paga por ter liberdade.

Tenho pensado que talvez o problema não seja a lista. O problema é acreditar que existe uma escolha certa. Não existe. O livro que você não compra hoje poderia ser o melhor livro da sua vida; mas você nunca vai saber. E tudo bem. A vida é feita também dos livros que não lemos, das pessoas que não amamos, das estradas que não pegamos. O luto das possibilidades não é um fracasso. É a condição humana.

Outro dia, depois de três dias de angústia, fechei o pedido. Chegaram os livros. Coloquei na estante. Um deles comecei a ler e abandonei na página 30. Outro devorei em dois dias. O terceiro ainda está lá, esperando. O quarto era tão ruim que doei para um sebo. O quinto se tornou um dos meus livros favoritos da vida. Não havia critério que pudesse prever isso. A escolha certa não existe. Existe a escolha que a gente faz e o que a gente faz com ela depois.

Hoje, quando abro as abas da Amazon, respiro fundo. Lembro que a lista de setecentas páginas não é um fardo. É um privilégio. Significa que ainda há coisas que me interessam, que o desejo não morreu, que o mundo ainda tem novidades. E a angústia? A angústia fica. Mas agora eu a reconheço como parte do processo. Não é defeito. É o preço de ainda estar vivo e querendo.

Compro os livros. Escolho os errados. Acerto alguns. A lista continua crescendo. E eu continuo aqui, entre uma aba e outra, tentando aprender que errar na escolha é melhor do que não escolher. Porque não escolher, no fundo, é a única escolha que realmente empobrece a vida.

Sensata - Saúde do Pensar
Sensata - Saúde do Pensar

ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC.

FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
Comentários:
ContextoSC

Publicado por:

ContextoSC

O ContextoSC nasceu com a missão de levar informação de qualidade, imparcial e acessível para todos. Nossa equipe busca apurar os fatos com responsabilidade, sempre priorizando a transparência e o compromisso com a verdade.

Saiba Mais
WhatsApp ContextoSC
Envie sua mensagem, responderemos assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR