O DESEJO DE SUMIR
Tem um momento, na vida de toda pessoa minimamente funcional, em que o desejo de sumir bate à porta. Não é um desejo de morrer — cuidado, isso é outra coisa, mais grave e menos romântica. É um desejo de reset. De apertar Ctrl+Alt+Del na existência e recomeçar do zero, de preferência num lugar onde ninguém sabe seu nome, suas dívidas, suas frustrações, aquele comentário infeliz que você fez no Natal de 2019 e até hoje repete no chuveiro.
Conheço uma mulher, mãe de dois filhos, casada há vinte anos, que mantém uma pasta no computador chamada "Viagens". Dentro, prints de passagens aéreas para lugares improváveis: Ulaanbaatar, Timbuktu, a ilha de Páscoa. Ela nunca comprou nenhuma. Mas nas noites em que a vida aperta, ela abre a pasta e fica olhando. "É como se eu pudesse ir", ela me disse. "Só de saber que existe a possibilidade, já melhora." Ela não quer sumir de verdade. Ela quer saber que pode. É a fantasia como válvula de escape, como oxigênio para o eu sufocado pela rotina.
A cultura americana, que nos vende tantas ilusões, nos vendeu também a do recomeço. O herói que larga tudo, pega a estrada, vira outra pessoa. Mudança de nome, de cidade, de identidade. Westerns, road movies, histórias de testemunha protegida. Há um fascínio profundo nessa ideia: a de que a gente pode, simplesmente, deixar para trás. A psicanálise, claro, tem uma visão menos otimista. Freud provavelmente diria: você pode mudar de cidade, de país, de continente. Mas o inconsciente vem junto na mala. Ele não precisa de visto. Não se submete à alfândega. Você chega em Ulaanbaatar, abre a janela para ver a paisagem exótica, e ele está lá, no seu ombro, sussurrando as mesmas culpas, as mesmas vergonhas, a mesma sensação de que você não é exatamente quem gostaria de ser.
O que a fantasia de sumir revela, na verdade, é um cansaço profundo: o cansaço de ser si mesmo. De carregar a própria história, as próprias escolhas, os próprios erros. De ser a mesma pessoa para os mesmos afetos, os mesmos desafetos, as mesmas cobranças. Há dias em que a gente olha para o espelho e pensa: "Você de novo?" Conheço um homem, cinquentão, bem-sucedido, que toda sexta-feira à noite, antes de dormir, pesquisa voos para o Japão. Não fala japonês. Não tem nenhum vínculo com o país. Mas gosta de imaginar que, lá, ninguém esperaria nada dele. "Aqui", ele diz, "sou o pai, o marido, o provedor, o responsável. Lá, seria só um cara." O que ele busca, no fundo, é a possibilidade de ser apenas um corpo no mundo, sem as funções que grudaram na pele.
Há quem encontre formas mais caseiras de sumir. O sujeito que passa horas no YouTube vendo vídeos de cabanas no meio do mato. A mulher que lê romances em que a protagonista larga tudo e vai viver numa ilha grega. O adolescente que passa madrugadas em fóruns de RPG, sendo personagens que nunca será. São sumiços de bolso. Pequenas mortes simbólicas que a gente se permite para não ter que morrer de verdade. O psiquismo, nesses momentos, está fazendo um trabalho de preservação: ele cria uma válvula, um escape, uma nesga de ar fresco. O problema é quando a válvula vira a própria vida. Quando o sujeito passa a morar na fantasia e abandona o corpo no mundo.
Lembro de um conto do Cortázar, "A autoestrada do sul", em que um engarrafamento gigantesco une um grupo de estranhos que, aos poucos, constrói uma comunidade. Quando o trânsito finalmente anda, todos hesitam em voltar para suas vidas. O engarrafamento, com todo seu desconforto, era também um sumiço permitido: um tempo fora do tempo, onde ninguém era exatamente quem era lá fora. Acho que a gente procura, nessas fantasias de sumir, um pouco desse engarrafamento. Um hiato. Uma pausa autorizada para não ser a pessoa que se é.
A verdade, porém, é que a maioria de nós não compra a passagem. Fecha a aba, apaga o histórico, e volta para a cama ao lado da mesma pessoa, para a mesa de trabalho com os mesmos prazos, para a cozinha com a mesma louça por lavar. O sumiço fica na gaveta, como aquela carta de demissão que a gente reescreve uma vez por mês e nunca entrega. Isso não é covardia. É, talvez, sabedoria. Porque sumir de verdade, como descobrem os poucos que tentam, não apaga nada. A mala vem junto. O inconsciente vem junto. O desejo de ser reconhecido, amado, aceito... tudo isso vem junto. A única coisa que muda é o cenário.
A psicanálise, no fundo, é o lugar onde a gente pode falar sobre o desejo de sumir sem ser internado. Onde a fantasia de reset é acolhida como o que ela é: um sintoma, uma mensagem, um pedido de socorro disfarçado de passagem para o Peru. O trabalho não é impedir a fantasia; seria impossível e indesejável. É entender o que ela está dizendo. O que cansa tanto na vida que se leva? O que pesa? O que falta? De que lugar a pessoa está tentando fugir quando pesquisa passagens para Ulaanbaatar às três da manhã?
Às vezes, a resposta é simples: falta tempo para si. Às vezes, é complexa: falta sentido. Às vezes, é trágica: falta coragem para mudar o que pode ser mudado, e sobra tolerância para o que deveria ser deixado. Mas, na maioria das vezes, o que a fantasia de sumir revela é apenas isto: a pessoa precisa de uma pausa. Não de uma fuga definitiva, mas de um respiro. De um dia em que ninguém cobre nada. De uma hora em que o nome próprio não venha acompanhado de funções, deveres, expectativas.
Porque sumir, no fundo, é fácil. Difícil é voltar — e descobrir que você ainda está lá, do mesmo jeito, esperando por si mesmo.
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