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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🐍 O que Melanie Klein tem a ver com aquela vontade de furar o pneu do colega que comprou um carro novo?

📍Artigo analisa como a obra de Melanie Klein explica o ressentimento pelo sucesso alheio

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Por ContextoSC
🐍 O que Melanie Klein tem a ver com aquela vontade de furar o pneu do colega que comprou um carro novo?
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O QUE MELANIE KLEIN TEM A VER COM AQUELA VONTADE DE FURAR O PNEU DO COLEGA QUE COMPROU UM CARRO NOVO?

Tenho um amigo que, toda vez que alguém próximo conquista algo (uma promoção, um prêmio, um relacionamento novo), faz uma cara que mistura sorriso amarelo e cólica. Depois, invariavelmente, encontra um motivo para o sucesso alheio não valer: "Ah, mas o pai dele ajudou", "Ela deu a vida por isso, não vive mais", "O carro é lindo, mas bebe demais". Pensei, durante anos, que ele fosse apenas um sujeito azarado no caráter. Até que, num lampejo de autoconhecimento induzido por uma sessão de análise particularmente dura, percebi: eu faço a mesma coisa. Só que com mais elegância literária.

A verdade, meus caros, é que a inveja é o maior elefante na sala da vida emocional. Todo mundo sente, ninguém assume. É como flatulência em reunião de condomínio: todos percebem, mas o silêncio é de ouro. E, no entanto, ela está lá, corroendo, queimando, fazendo a gente torcer secretamente para que o amigo que emagreceu engorde tudo de volta até o Natal.

A psicanálise, claro, tem uma teoria para isso. Aliás, a psicanálise tem uma teoria para tudo — é por isso que nós, analistas, somos tão chatos em jantares e temos poucos amigos.

Melanie Klein, uma senhora austríaca que deve ter tido pouquíssimos convites para festas infantis, dedicou boa parte de sua obra ao que chamou de inveja primária. Para ela, o bebê, aquele ser aparentemente inocente que só quer mamar e dormir, já é, nas profundezas de sua psique em formação, um pequeno lago de ácido. O seio que alimenta, que dá conforto, que tem tudo o que ele não tem, é também objeto do mais profundo ressentimento. O bebê quer destruir aquilo que lhe dá prazer, justamente porque vem de fora. É a primeira vez que a gente aprende que o outro tem algo que a gente não tem; e a primeira vez que isso nos enfurece.

Crescemos, aprendemos a disfarçar, a sorrir e dar parabéns. Mas, no fundo, o bebê kleiniano continua vivo, roendo as unhas, esperando a hora de sussurrar: "Esse prêmio era meu" ou "Com a luz errada, ela nem é tão bonita assim".

Conheci, no consultório, uma mulher brilhante. Executiva, competente, respeitada. Ela passava horas falando de sua colega de trabalho. Como a colega era bajulada, como a colega recebia os melhores projetos, como a colega tinha um cabelo que "até Deus duvida". A certa altura, perguntei: "O que você sente quando elogiam sua colega?" Silêncio. Olhos marejados. E, finalmente, a confissão: "Sinto que estão tirando um pedaço de mim."

Aí está o segredo da inveja. Ela não é sobre o outro. É sobre a gente. É sobre a ilusão de que o sucesso alheio diminui o nosso território. Como se o mundo fosse uma pizza de tamanho fixo, e cada fatia que vai para o outro fosse uma fatia a menos para a gente. A psicanálise chama isso de fantasia inconsciente, mas podia chamar de "teoria da escassez afetiva". E, pasmem, ela não é verdade. O mundo não é uma pizza. É um bufê. Mas tente explicar isso para o bebê que mora dentro de você enquanto ele vê o irmão mais novo ganhando outro pedaço de bolo.

O problema é que a inveja é um afeto proibido. A raiva, a tristeza, o medo, todos têm seu lugar ao sol. Mas a inveja? A inveja é tratada como pecado mortal, falha de caráter, prova definitiva de que você é uma pessoa horrível. Então a gente a recalca. Enterra viva. E ela, claro, não morre; ela apodrece. Vira comentário maldoso disfarçado de preocupação, vira distanciamento súbito de amigos que prosperam, vira aquela sensação estranha de alívio quando alguém de quem a gente tinha inveja finalmente tropeça.

Freud, que também pensou sobre o assunto (ele pensou sobre tudo, o homem não dormia), dizia que a inveja é um dos componentes do ciúme normal, mas, quando recalcada, vira máquina de moer relações. O pior é que a gente nunca diz: "Estou com inveja". A gente diz: "Não acho justo". "Isso não é mérito." "O mundo está perdido." A inveja anda disfarçada de senso de justiça, o que é particularmente irritante para quem realmente luta por justiça.

No divã, o trabalho é desenterrar essa múmia. É dar licença para o paciente dizer, em voz alta, sem culpa: "Sim, eu queria que fosse comigo." "Sim, eu queria o que ela tem." "Sim, eu sou uma pessoa boa que, às vezes, sente vontade de furar o pneu do colega." Quando a inveja é nomeada, ela perde parte de seu poder destrutivo. Ela vira apenas um sentimento, entre tantos outros; não um monstro que controla a casa.

Lembro de um paciente, homem bem-sucedido, que se afastou de todos os amigos de juventude. Não entendia por quê. Até que, numa sessão, lembrou de um encontro em que um deles contou sobre uma viagem incrível à Europa. Ele ouviu, sorriu, deu parabéns. E nunca mais ligou. "O que aconteceu ali?", perguntei. Silêncio longo. "Acho que não suportei a ideia de que ele estava vivendo algo que eu também queria." Pronto. A inveja, nomeada, deixou de ser um fantasma e virou história. E história a gente pode reescrever.

A proposta da análise não é eliminar a inveja — isso seria como eliminar o apetite ou o cansaço. É desarmá-la. É aprender que o desejo do outro não apaga o nosso, por mais que pareça. É descobrir que o bufê é generoso, mesmo quando a gente está de regime. É, principalmente, poder rir de si mesmo quando aquele pensamento mesquinho atravessa a mente e seguir em frente, sem precisar se odiar por ser humano.

Você não é má pessoa por sentir inveja. Você é uma pessoa que ainda não aprendeu que o mundo não é uma pizza. E que, mesmo que fosse, haveria sempre a possibilidade de pedir outra ou de descobrir que, no fundo, você nem gosta tanto de pizza assim.

No meu caso, por exemplo, tenho uma inveja terrível de escritores que publicam um livro por ano. Mas, ao mesmo tempo, desconfio que eles não passam tempo suficiente pensando na morte enquanto tomam café. Prefiro meu ritmo. Mesmo que seja, reconheço, pura racionalização.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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