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Terça-feira, 05 de Maio 2026
Filipe De Castro

🪞 Narciso era um rapaz triste: a dor por trás do espelho

👤 Entre o mito de Ovídio e o divã de Freud, a análise mostra que o narcisismo não é sobre excesso de amor, mas sobre a falta dele

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Por ContextoSC
🪞 Narciso era um rapaz triste: a dor por trás do espelho
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NARCISO ERA UM RAPAZ TRISTE

O mito conta que Narciso era belo. Muito belo. Tão belo que todas as ninfas se apaixonavam por ele. E ele, coitado, não podia corresponder porque, segundo o oráculo, morreria se soubesse o próprio rosto. A versão mais conhecida vem das Metamorfoses de Ovídio: Narciso vê seu reflexo na água, apaixona-se por si mesmo, não consegue afastar-se, e morre consumido pelo amor que não pode ser correspondido porque o objeto está ali, mas é apenas imagem. No lugar do corpo, uma flor. A flor que até hoje chama-se narciso.

O que a mitologia sabia, e a psicanálise depois confirmou, é que o narcisismo não é sobre amor-próprio. É sobre a impossibilidade de amar o outro. Narciso não ama a si mesmo; ama uma imagem de si mesmo. E essa imagem, por definição, não ama de volta. Ele morre sozinho, diante do próprio reflexo, sem nunca ter tocado ninguém. É a mais triste das histórias de amor. Não porque o amor seja trágico, mas porque nem chegou a ser amor.

Freud, que gostava de mitologia e também de flores, pegou o nome emprestado para descrever um estágio do desenvolvimento psíquico. O narcisismo primário é aquele momento da primeira infância em que o bebê é o centro do próprio universo. Não por maldade, mas por necessidade. Ele não sabe que os outros existem como outros. Ele é o mundo. E o mundo é ele. É uma fase normal, necessária, e que a gente precisa, aos poucos, superar. O problema é quando a gente não supera. Ou quando, depois de ter superado, regride por alguma ferida.

O narcisismo patológico, na clínica, não é a pessoa que se olha no espelho e se acha linda. É a pessoa que precisa do espelho o tempo todo porque, sem ele, não tem certeza de que existe. É a pessoa que não suporta críticas porque cada crítica é um abalo sísmico num ego que já é frágil. É a pessoa que transforma o outro em plateia, não em parceiro. O narcisista, no fundo, é um carente de alto luxo. Ele precisa do olhar do outro para existir, mas não consegue reconhecer o outro como alguém que também precisa.

A história da arte está cheia de Narcisos. Não só os pintados — Caravaggio, Poussin, Dalí. Mas os que viveram. Oscar Wilde, por exemplo, foi um narciso de primeira linha, mas um narciso que sabia rir da própria condição. "Eu pus todo o meu gênio na minha vida; só pus o meu talento nas minhas obras." É uma frase que poderia ser dita por qualquer analisando numa sessão de quinta-feira. O narcisista cultiva a si mesmo como obra de arte. O problema é que obras de arte não conversam. Elas são admiradas, mas não se relacionam.

Conheço um homem, desses que circulam por certos círculos intelectuais, que não consegue ouvir mais do que três frases seguidas de outra pessoa sem desviar o assunto para si mesmo. "Estou passando por um momento difícil" — diz o amigo. "Você acha difícil? Eu, na semana passada..." Ele não é mau. Ele é só narcisista. A dor do outro não entra porque a sua própria dor já ocupa todo o espaço. O divã, para ele, é o único lugar onde alguém é pago para escutá-lo sem competir. E mesmo assim, às vezes, ele compete.

Lacan, que não era conhecido pela leveza, disse uma coisa boa sobre o narcisismo: ele é estruturalmente frustrante. Porque o espelho, o tal estádio do espelho lacaniano, mostra uma imagem idealizada de mim mesmo que nunca serei. Passo a vida tentando ser aquele sujeito inteiro, unificado, bonito, que vi no reflexo. Mas sou só essa pessoa aqui, com olheiras e dúvidas. O narcisismo é a tristeza de nunca alcançar a própria imagem. É o retrato de Dorian Gray ao contrário: o quadro envelhece, e você quer ser o quadro.

O tratamento psicanalítico do narcisismo é delicado. Não se trata de "tirar o paciente do pedestal", isso ele já faz sozinho, com ataques de autodepreciação que são tão narcísicos quanto os delírios de grandeza. Trata-se de ajudá-lo a suportar a própria humanidade. A suportar que não é especial. Que o mundo não gira em torno dele. Que o outro não é plateia. Que a vida, afinal, é feita de pequenas renúncias ao papel de protagonista.

Narciso, no mito, morre porque não consegue parar de olhar para si. A flor que brota do seu corpo é bonita, mas é frágil, dura pouco, e não enxerga nada. O narcisista que chega ao consultório, quando o trabalho dá certo, não vira um santo altruísta. Vira apenas uma pessoa mais suportável. Alguém que consegue, de vez em quando, perguntar "como você está?" e esperar a resposta de verdade.

É pouco. Mas, para quem viveu a vida inteira em frente ao próprio reflexo, pouco já é mudança.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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