Aguarde, carregando...

Sábado, 06 de Junho 2026
Filipe De Castro

🔬 O Pacto: De observadora de formigas a CEO na Biotecnologia

🇧🇷 Trajetória da Dra. Leila Lopes destaca os desafios da mulher na ciência e a transição da academia para o empreendedorismo

ContextoSC
Por ContextoSC
🔬 O Pacto: De observadora de formigas a CEO na Biotecnologia
Divulgação
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Bom dia a todos.

Esta semana, tenho a honra de ceder meu espaço a uma convidada especial. A Dra. Leila M. Lopes, bióloga e PhD, compartilha conosco um relato sensível e necessário sobre a trajetória das mulheres na ciência, os desafios do empreendedorismo acadêmico e a importância da autonomia feminina. Uma leitura inspiradora que nos convida a refletir sobre talento e reconhecimento.

O Pacto: Como uma Menina que Atazanava Formigas Virou Cientista

Autora: Dra. Leila M. Lopes, PhD

Aceitei o desafio de escrever um artigo que refletisse a trajetória e a realidade das mulheres na Ciência ou na STEM, acrônimo em inglês para Science, Technology, Engineering, and Mathematics (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática); mas como começar? Considerei que a forma mais leal e verdadeira seria narrar um pouco da minha trajetória como uma mulher latina, bióloga e cientista por vocação, amor e escolha.

Sou oriunda de uma família de classe média, cuja mãe assumiu o papel de "pai e mãe" e tornou-se a provedora quando eu tinha apenas nove anos de idade. Naquele momento, um mundo de conforto e tranquilidade financeira desabou, e isso me levou a "virar adulta" muito cedo para ajudar a cuidar da casa e do meu irmão caçula. Essa experiência me marcou profundamente e me fez firmar um pacto comigo mesma: "Eu jamais seria uma mulher financeiramente dependente de um marido." Comprometi-me a concretizar meus sonhos por meio do meu próprio mérito e esforço.

Este artigo não só honra minha mãe, que, como muitas mulheres nascidas no início do século XX, apesar de pertencer a um núcleo familiar com condições de arcar com seus estudos, não pôde fazê-lo e passou a vida suspirando e lutando para que eu tivesse todas as oportunidades que ela não teve. Em outras palavras, para que eu tivesse o livre-arbítrio de avançar nos meus estudos e pudesse cursar uma graduação em uma universidade ou seguir a carreira de minha escolha. Minha mãe fez de tudo para que eu tivesse todas as oportunidades que lhe foram negadas; deu-me o livre-arbítrio para seguir meu sonho e tornar-me cientista. Fiz o mesmo com minhas duas filhas, Mariana e Bianca, que tiveram o poder de escolher suas carreiras e suas trajetórias pessoais.

Não poderia continuar esta narrativa sem honrar a memória de outra mulher fundamental na minha história: minha avó materna. Nascida em Pernambuco sob a Lei do Ventre Livre, filha de uma mulher escravizada, foi órfã de mãe viva e cresceu junto de seu irmão, de quem nunca se separou. Tiveram "a sorte" de serem entregues juntos aos cuidados das Filhas de Sant'Ana, congregação fundada em 1866 na Itália e presente no Brasil desde 1884, que cumpriu a promessa de jamais separar os dois irmãos sob sua tutela. Graças a essa proteção, puderam estudar e constituir suas famílias. Destaco aqui que, apesar de inúmeros esforços, minha mãe e eu jamais encontramos um documento de nascimento de minha avó, que só foi reconhecida civilmente por sua certidão de casamento.

Portanto, este artigo homenageia, além das mulheres cientistas do Brasil e da América Latina, tantas outras mulheres que, como minha mãe e minha avó, lutaram e/ou lutam para que suas filhas e netas sejam livres para escolher seu caminho e/ou tenham todos os seus direitos plenamente reconhecidos, dentre eles o direito à vida. A luta continua!

Foi ainda menina que me descobri curiosa e apaixonada pela natureza e pela química. Enquanto todas as amiguinhas colocavam as bonecas para dormir eu queria fazer misturas para alimentar as bonecas e criava cada fórmula doida! Lembro que ficava horas observando o ir e vir das formigas, na entrada do formigueiro e, claro, atazanava as formigas com um palito para ver sair as "guerreiras"! Já adolescente, na Feira de Ciências do meu saudoso Colégio Pedro II, montei com minha melhor amiga uma chocadeira com ovos galados e que deu certo. Meu primeiro experimento e estudo de como fazer para criar pintinhos in vitro.

Foi assim que, respeitando meu coração, escolhi fazer minha graduação em Biologia cursada na antiga Universidade da Guanabara (UEG), mas sentia falta da química. Na graduação me especializei em bioquímica, trabalhando como estagiária de iniciação científica no INCA (Instituto Nacional do Câncer), estudando biologia celular e bioquímica do tumor de Ehrlich. A busca por aprofundar o conhecimento em química me levou a fazer o mestrado e doutorado no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Como estudante de pós-graduação, na área de Bioquímica, tive o privilégio de ter como exemplo e inspiração grandes mulheres cientistas. Aqui citarei duas delas que muito me impactaram: a Dra. Johanna Döbereiner da Embrapa/RJ e a Dra. Lúcia Mendonça-Previato, do Instituto de Microbiologia da UFRJ, com quem tive o privilégio de trabalhar e de tê-la como co-orientadora no doutorado. Foi um divisor de águas para mim! Apaixonei-me pela Bioquímica de Microrganismos, além de ser apresentada a uma área hard para uma bióloga, a Glicobiologia.

Era década de 90 e nossa geração foi ainda influenciada por outros cientistas que pensavam "fora da caixa" como o Dr. Leopoldo de Meis que criou o Instituto de Bioquímica da UFRJ, um bioquímico revolucionário que uniu a Ciência, com a Arte e a Educação. Uma abordagem verdadeiramente transdisciplinar que influencia meu pensar, até hoje.

Como era ser uma mulher, que dependia do ensino público, com pretensão de me tornar uma boa cientista? Não era fácil e acabei fazendo o script de tantas outras mulheres. Sacrifiquei meu sonho de fazer o pós-doutorado, por causa do casamento. Claro que não deu certo e, após a separação, minha primeira decisão foi embarcar para os EUA com uma filha pequena e uma babá para fazer meu pós-doutorado na University of California (UCLA).

De volta ao Brasil, já uma cientista madura e docente de uma universidade pública, fui eleita vice-diretora do Instituto de Biologia e lutei para implantar a transdisciplinaridade no curso de Biologia, criando a área de Biotecnologia. Nunca enfrentei tanta resistência política e acadêmica e, confesso, joguei a toalha. Anos depois, aposentei-me ainda como Professora Associada, pois me desiludi com o engessamento da academia.

Como aprendemos no empreendedorismo, uma dor pode virar uma oportunidade e, se abraçada, transformar-se em algo produtivo. Foi o que aconteceu. Convidada como Pesquisadora Visitante da USP, mudei-me para São Paulo, e foi aqui que me desafiei novamente. Fundei uma startup em biotecnologia para realizar outro sonho: ver a ciência que abracei chegar até a sociedade. Essa fôra minha intenção frustrada no Rio de Janeiro, qual seja, fazer a ponte entre a pesquisa e a inovação. E não é que está dando certo?

Porém, no universo científico e no empreendedorismo acadêmico, embora haja reconhecimento de grandes nomes femininos, ainda precisamos provar continuamente que somos merecedoras desse reconhecimento, especialmente no nosso próprio país. Basta observar quantas mulheres são chefes de laboratório, chefes de departamento, diretoras e reitoras. Na grande maioria dos casos, os homens ocupam os cargos de titular, e às mulheres cabe a função de vice. Em outras palavras, somos uma sociedade machista e muitas mulheres reproduzem esse machismo ao criar seus filhos.

Em resumo, mesmo com excelência profissional, não somos tratadas de forma igualitária. Somos submetidas a toda sorte de preconceitos, sendo chamadas de "intensas" como forma de desqualificação, entre outros estereótipos. Ser forte, independente, dona de si e segura de quem se é incomoda o universo acadêmico masculino, mas também a algumas mulheres. A falta de sororidade reflete a ausência de empatia, união e apoio entre mulheres, muitas vezes substituídos por rivalidade, julgamentos e competição, impulsionados por uma estrutura machista. A academia, ainda dominada por homens, não difere dessa realidade geral. Não raro, somos desacreditadas, mesmo sendo autoras de achados científicos relevantes, por motivos que extrapolam qualquer padrão de qualidade acadêmica.

Como cientista empreendedora e CEO da BIDiagnostics®, não é diferente aliás, diria que muitas vezes é pior. Já conquistamos espaços importantes, mas o caminho ainda é árduo, e não podemos esmorecer na luta feminina por espaço e reconhecimento, por merecimento. Que este artigo possa inspirar outras meninas sonhadoras que "observam as formigas" a se tornarem cientistas e a nunca esmorecerem na busca de seus sonhos.

Leila M. Lopes

Fundadora e CEO da startup Bio Insumos e Diagnósticos LTDA (BIDiagnostics) é Bacharel em Ciências Biológicas (modalidade Médica) pela antiga UEG (Universidade da Guanabara) com Mestrado e Doutorado em Bioquímica, pelo Inst. de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Realizou seu pós-doutorado na University of California (UCLA), USA (2001-2002) e dois Estágios Sabáticos; em Proteômica, na Universidad Complutense de Madrid (2016) e, em Glicobiologia de Fungos, na University of Aberdeen, UK (2014). Aposentou-se em 2019 como Profa. Associada da UERJ, com quase uma centena de trabalhos internacionais publicados, onde ingressou na carreira docente em 1980 como Professora Auxiliar. Como acadêmica foi bolsista de Produtividade em Pesquisa do nível 1 do CNPq; Cientista do Nosso Estado da FAPERJ; Visiting Professor da University of Aberdeen, UK (2015-2018) e Pesquisadora Visitante da USP na Faculdade de Ciências Farmacêuticas e no Instituto de Ciências Biomédicas (2017-2021), atuando na transposição de conhecimento da Academia para a Sociedade, colaborando em projetos de Pesquisa Aplicada e co-orientando alunos de doutorado. Foi na USP que iniciou sua carreira como Pesquisadora Empreendedora e fundou a startup BIDiagnostics, em 2019.Áreas atuação: Glicômica, Proteômica, Microbiologia Aplicada e Imunodiagnóstico. (Fonte: Currículo Lattes)

Sensata - Saúde do Pensar
Sensata - Saúde do Pensar

ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC.

FONTE/CRÉDITOS: Dra. Leila M. Lopes, PhD
Comentários:
ContextoSC

Publicado por:

ContextoSC

O ContextoSC nasceu com a missão de levar informação de qualidade, imparcial e acessível para todos. Nossa equipe busca apurar os fatos com responsabilidade, sempre priorizando a transparência e o compromisso com a verdade.

Saiba Mais
WhatsApp ContextoSC
Envie sua mensagem, responderemos assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR