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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

👤 Luto não autorizado: a dor invisível que a sociedade não permite sentir

specialistas alertam para o "luto silenciado", que ocorre quando perdas como demissões, morte de pets ou fim de relações não são validadas socialmente

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👤 Luto não autorizado: a dor invisível que a sociedade não permite sentir
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LICENÇA PARA SOFRER

Conheço um homem que, há três anos, perdeu o emprego. Não era um grande emprego — era uma daquelas posições que a gente ocupa mais por inércia do que por vocação. Mas era o emprego dele. Nas primeiras semanas, sentiu um alívio suspeito. Depois, veio um vazio. Depois, uma tristeza que não passava. Depois, insônia. Depois, diagnóstico: depressão.

"Mas por que depressão?", ele me perguntava, como se eu tivesse a resposta. "Não morreu ninguém. Foi só um emprego. Arranjo outro." Ele repetia isso como um mantra, esperando convencer a si mesmo. Não convenceu. E, no fundo, o problema era exatamente esse: não morreu ninguém. Não havia corpo, não havia velório, não havia missa de sétimo dia. Havia apenas um vazio sem cerimônia, uma dor sem licença para doer.

Chama-se luto não autorizado, ou, num termo mais técnico e bonito, luto silenciado. Foi o sociólogo Kenneth Doka quem cunhou a expressão "disenfranchised grief" nos anos 1980, para descrever aquelas perdas que a sociedade não reconhece como legítimas. Não há funeral, não há cartão de condolências, não há aquele prato de comida que os vizinhos trazem. Há apenas você, com sua dor, e o mundo dizendo, em palavras ou silêncios: "isso não é motivo para sofrer".

As categorias são muitas, e todas elas já passaram pelo meu consultório, algumas vezes por semana:

Tem a perda que não é reconhecida como perda. O cachorro que morre depois de quinze anos de lealdade incondicional — "era só um animal", dizem, enquanto você sente que perdeu um filho. Estudos mostram que o luto por animais de estimação é uma das formas mais comuns e menos validadas de sofrimento. A pessoa fica ali, com aquela dor enorme, sem poder faltar ao trabalho porque "não é parente".

Tem o enlutado que é desqualificado. A criança que perde o avô e os adultos acham que "ela nem entende direito". O idoso que perde o cônjuge e pensam que "já viveu o suficiente". A pessoa com deficiência intelectual que chora e dizem que "não tem noção do que perdeu". Como se a dor precisasse de autorização prévia, de diploma, de atestado de capacidade para ser sentida.

Tem a morte estigmatizada. O suicídio, a overdose, a AIDS... aquelas mortes sobre as quais ninguém quer falar, que vêm com um silêncio constrangedor nos almoços de família. O enlutado carrega não só a dor, mas também a vergonha, o segredo, a sensação de que o falecido "fez por merecer".

E tem, talvez a mais traiçoeira, a perda que não é morte. O fim de um casamento, a saída dos filhos de casa, a aposentadoria, a perda da saúde, o diagnóstico de uma doença crônica. Perdas sem caixão, sem lápide, sem data marcada para o luto acabar.

Lembro de uma paciente, mulher brilhante, que adoeceu depois que o filho mais velho foi para a faculdade. Nada grave: uma fadiga persistente, um desânimo, um choro fácil. Ela mesma se diagnosticou: "Deve ser TPM, ou falta de vitamina, ou preguiça." Levou meses para poder dizer, em voz alta, sem se sentir ridícula: "Estou de luto. Meu filho foi embora." Mas como fazer luto de alguém que está vivo? Como chorar uma perda que a sociedade chama de "orgulho" e "realização"?

Freud, em 1917, escreveu um pequeno texto chamado "Luto e Melancolia" que até hoje assombra os consultórios. Ele disse algo simples e devastador: a melancolia é um luto que não pode se declarar. É a dor que não encontra palavras, que não tem cerimônia, que não é autorizada a existir. Então ela se transforma. Vira angústia, vira insônia, vira aquela sensação estranha de que algo está errado, mas não se sabe o quê.

O paciente do emprego perdido, por exemplo. Ele não estava de luto apenas pelo salário ou pela rotina. Estava de luto por um pedaço de si mesmo: a identidade, o lugar no mundo, as pequenas conversas de café, a sensação de ser útil. Tudo isso morreu no dia da demissão. Mas não houve luto autorizado para essas mortes. Não há obituário para a identidade profissional. Não há missa para o colega que a gente via todo dia e de repente nunca mais viu.

O que a psicanálise oferece, nesses casos, é algo simples e revolucionário: permissão. Permissão para sofrer pelo que se perdeu, mesmo que o mundo não entenda. Permissão para chorar o cachorro, o emprego, a juventude, o amigo que se afastou. Permissão para dizer "isso dói" sem precisar justificar o tamanho da dor.

Conheço outra paciente que, depois de meses de análise, finalmente conseguiu fazer o luto do pai alcoólatra que nunca amou direito. Durante anos, ela repetia: "Não vou chorar por ele, não merece." Até que, numa sessão, chorou. E disse, entre soluços: "Não é por ele. É por mim. Pelo pai que eu nunca tive." A dor, antes proibida, virou luto legítimo. E só então começou a passar.

Há quem precise de rituais. Acender uma vela, escrever uma carta, fazer uma pequena cerimônia sozinho. Estudos mostram que rituais simbólicos podem ser extremamente eficazes no tratamento do luto não autorizado; eles dão forma ao que não tem forma, nome ao que não tem nome. Não precisa ser padre. Basta ser gente. Basta reconhecer que aquilo que se foi importava.

No fundo, o luto não autorizado é uma falha de testemunha. A dor precisa ser vista para ser elaborada. Quando ninguém vê, quando ninguém valida, a dor vira fantasma e fantasma não vai embora, apenas assombra.

No divã, a gente tenta ser essa testemunha. O lugar onde o paciente pode dizer: "Perdi algo importante, mesmo que ninguém mais saiba". Onde o emprego perdido pode ser chorado. Onde o cachorro pode ter seu funeral. Onde a saída do filho pode ser vivida como perda, sem culpa de estar exagerando.

No final das contas, a frase que mais repito no consultório talvez seja a mais simples e a mais difícil de aceitar: "Você não está doente à toa. Você está de luto. O problema é que ninguém deu licença para você sofrer — nem você mesmo."

O primeiro passo é se dar essa licença. O segundo é encontrar alguém que ajude a carregar o peso. O terceiro, descobrir que, mesmo sem caixão, sem vela e sem missa, é possível enterrar o que se foi e, aos poucos, voltar a viver.

Quanto ao meu amigo do emprego perdido, ele encontrou outro trabalho. Mas a depressão só passou quando ele entendeu que não era preguiça, não era falta de vitamina, não era frescura. Era luto. E luto, autorizado ou não, tem seu tempo. Respeitar esse tempo é, talvez, o maior ato de coragem que a gente pode ter com a própria alma.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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