SOBRE FIBROMIALGIA E A VIDA EM GREVE
Ela chegou arrastando a bolsa. Não metaforicamente — arrastando mesmo, pela alça, como quem carrega um peso que não tem mais forças para levantar. Sentou-se na poltrona (meu divã é para quem já aceitou que deitar faz parte do processo; ela ainda não), e disse: "Doutor, eu li num site que a fibromialgia é doença de mulher que faz tudo. Eu faço tudo. Será que é isso?"
Eu olhei para ela. Mulher por volta dos cinquenta, olheiras profundas, mãos inquietas, postura de quem está segurando o mundo nas costas mas já começou a sentir os primeiros estalos da coluna. Pensei: se depender de site, a gente não sai do lugar. Mas a pergunta dela era boa. Era, no fundo, a pergunta que todo fibromiálgico faz em algum momento: o que meu corpo está tentando me dizer?
Porque a fibromialgia é isso: um corpo que resolve falar quando a boca cansou de se calar.
A medicina descreve a fibromialgia como uma síndrome de dor crônica generalizada, acompanhada de fadiga, distúrbios do sono, rigidez matinal, dificuldades de concentração. Tudo isso é verdade. Mas a medicina, sozinha, não explica por que a doença atinge sete mulheres para cada homem. Nem porque surge, tantas vezes, depois de períodos de estresse prolongado, perdas significativas, acúmulo insustentável de tarefas.
A psicanálise, que não tem compromisso com exames de sangue, mas tem com a escuta, talvez ofereça uma pista: a fibromialgia é o que acontece quando a gente diz "sim" com a boca e "não" com o corpo durante décadas. O corpo, então, cansa de ser o único a carregar o não. E vira grevista.
Conheço uma paciente, professora, que passou trinta anos dizendo sim para tudo: sim para aulas extras, sim para reuniões aos sábados, sim para cuidar da mãe doente, sim para segurar as pontas do casamento, sim para os filhos, sim para os amigos, sim para a vida. Um dia, o corpo disse não. Acordou com dor. No outro dia, mais dor. No outro, mais. Três anos depois, ela estava aposentada por invalidez, com diagnóstico de fibromialgia grave. "Nunca aprendi a dizer não", ela me disse, num misto de lamento e descoberta. "Agora o corpo diz por mim."
Há quem chame isso de somatização. Palavra feia, que soa como acusação: "você está somatizando" é primo próximo de "isso é coisa da sua cabeça". Mas não é. É o contrário. É o corpo dizendo: "Isso é coisa do meu corpo, sim. E já que você não me escuta, vou falar mais alto."
No final do século XIX, Freud andou pelos corredores do hospital parisiense de Charcot e viu mulheres com paralisias sem lesão, dores sem causa, cegueiras sem dano nos olhos. Chamavam aquilo de histeria. E, por muito tempo, achou-se que era fingimento, ou sugestão, ou frescura.
Freud teve a coragem de levar a sério aquelas mulheres. Percebeu que o corpo delas falava uma língua que a medicina não conhecia: a língua do recalcado. Coisas que não podiam ser ditas, sentidas, lembradas... o corpo lembrava por elas. O corpo virava memória, testemunho, denúncia.
A fibromialgia é parente distante dessa histeria antiga. Não a mesma coisa; a história não se repete, mas rima. A mulher do século XXI não está sendo abusada pelo tio e calada pela família (embora isso ainda aconteça). Ela está, muitas vezes, sendo esmagada pelo ideal de ser tudo para todos. E quando não há mais espaço para ser algo para si mesma, o corpo grita.
Uma das coisas que a psicanálise ensina é que o corpo guarda arquivos que a mente prefere esquecer. Não é misticismo, é observação clínica. Pacientes que sofreram perdas e não puderam chorar desenvolvem dores nas costas. Pacientes que engoliram raiva por anos têm gastrite crônica. Pacientes que viveram no modo automático acordam um dia com o corpo em chamas.
A fibromialgia, vista dessa perspectiva, é um arquivo corrompido. Informação demais acumulada, processada errado, explodindo o sistema. O corpo tenta processar o que a mente não deu conta, mas não tem software para isso. Então trava. Dói. Grita.
Lembro de um homem, executivo, que desenvolveu fibromialgia depois de uma reestruturação na empresa. Perdeu o cargo, mas não perdeu o salário. "Não tenho motivo para reclamar", ele repetia. O corpo discordava. Dois anos depois, ele mal conseguia levantar da cama. O luto pelo cargo, pela identidade, pelo respeito — luto não autorizado, sem velório — virou dor no corpo. O corpo fez o enterro que a mente não pôde fazer.
Tem uma frase que escuto muito de pacientes com fibromialgia: "Parece que ninguém acredita em mim." É a solidão do doente invisível. Como não há exame que prove, a dor vira suspeita. O paciente vive num limbo: dói, mas não tem prova; sofre, mas não tem laudo; cansa, mas não tem direito a descansar.
A psicanálise não oferece laudo. Oferece escuta. Lugar onde a pessoa pode dizer "dói" sem ouvir em seguida "mas você fez exames?". Lugar onde a pergunta não é "o que você tem?" mas "o que está acontecendo na sua vida?". Lugar onde a dor, em vez de ser combatida com remédios que mal funcionam, é acolhida como mensagem.
Porque a fibromialgia, no fundo, é uma mensagem. Pode ser "estou cansada de ser forte". Pode ser "preciso de colo". Pode ser "não dou mais conta". Pode ser, simplesmente, "para tudo que eu quero descer". O corpo, quando vira piquete, não negocia. E quem está do lado de fora, tentando atravessar, precisa entender o que o grevista está pedindo.
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