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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🎭 De Shakespeare a Mamonas: a psicanálise por trás do fetiche

🧬 Artigo explora as conexões entre o dilema de Hamlet, a irreverência de Bento Hinoto e as estruturas de gozo propostas por Lacan sobre a figura do "corno".

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🎭 De Shakespeare a Mamonas: a psicanálise por trás do fetiche
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O QUE SHAKESPEARE, MAMONAS ASSASSINAS E LACAN TÊM EM COMUM (ALÉM DE NUNCA TEREM SIDO MEUS PACIENTES).

Há uma frase dos Mamonas Assassinas que me assombra há décadas. Não por razões musicais propriamente — embora "Pelados em Santos" tenha seu lugar na história da cultura nacional —, mas por razões filosóficas. A frase é: "Ser corno ou não ser, eis a minha indecisão."

Sim, é uma piada. Sim, é escatológica. Sim, é Mamonas. Mas é também, e talvez principalmente, uma apropriação indevida e brilhante do dilema hamletiano. Hamlet pensava em vida e morte, existência e aniquilamento. O eu lírico dos Mamonas pensa em chifres. E a pergunta que me faço, como psicanalista que passa os dias ouvindo as coisas mais bizarras que o ser humano pode imaginar, é: será que são perguntas tão diferentes assim?

Shakespeare, que entendia de psicanálise antes de Freud existir, já havia percebido que o ciúme — e particularmente o ciúme conjugal — é um território minado. Em Otelo, Iago adverte o mouro: o ciúme é "um monstro que se gera em si mesmo e de si nasce". Não precisa de causa externa. Ele se autoalimenta.

O que Shakespeare não podia prever é que, quatrocentos anos depois, esse monstro iria se diversificar. Haveria o ciúme clássico, o que sofre. E haveria o ciúme que goza: aquele que, em vez de temer a cena da traição, a fantasia, a convoca, a produz.

Estamos falando do fetiche do corno. Do cuckold, no jargão que os sites especialistas adotaram. Do homem que sente excitação (sim, excitação sexual) ao imaginar (ou ver) sua parceira com outro homem.

A reação imediata, claro, é o espanto. Como alguém pode sentir prazer naquilo que a cultura ocidental, desde os fabliaux medievais, trata como a suprema humilhação masculina? O corno, na tradição literária, é sempre objeto de riso. É o Otelo enganado, o Carlos Bovary traído, o palhaço da ópera. Como é que esse personagem, secularmente ridicularizado, vira protagonista de fantasias sexuais?

A psicanálise, como sempre, tem uma teoria. Ou várias.

O psicanalista Jacques Lacan, que não era fácil de ler mas era impossível de ignorar, dedicou boa parte de sua obra ao que chamou de estruturas clínicas. Uma delas é a perversão. E a perversão, para Lacan, não é simplesmente "fazer coisas estranhas na cama". É uma posição subjetiva específica: a de quem se coloca como instrumento do gozo do Outro.

No caso do fetiche de ser corno, isso significa: o homem não goza apesar da humilhação. Ele goza com a humilhação. Ele se coloca na cena como aquele que viabiliza o prazer da parceira com outro. É o que um estudioso chamou de "prazer na encenação da própria castração". Em vez de defender-se contra a ameaça de ser traído, ele a antecipa, a produz, a dirige — e goza com isso.

Há estudiosos que veem aí uma continuidade com certos personagens da comédia inglesa do século XVII, aqueles wittols que parecem não apenas aceitar mas colaborar com a própria cornitude. São figuras ambíguas, que ao mesmo tempo provocam e aliviam a ansiedade masculina sobre a sexualidade feminina. Funcionam como sintomas sociais: encarnações literais de contradições que a sociedade prefere não nomear.

Uma pesquisa recente investigou justamente a fantasia de cuckold. Os pesquisadores descobriram que essa fantasia é mais complexa e multifacetada do que as primeiras associações sugerem. Ela envolve questões de confiança, de poder, de entrega, de voyeurismo, de desafio aos tabus da masculinidade tradicional.

Ou seja: não é só "gosto de ver minha mulher com outro". É, também, "gosto de confiar nela a ponto de saber que ela pode desejar outro e ainda assim voltar". É "gosto de testar os limites do meu próprio ciúme". É "gosto de, por um momento, não ser o centro do mundo".

Não estou dizendo que todo homem que tem essa fantasia é um proto-filósofo. Estou dizendo que a fantasia, como todo produto do inconsciente, é superdeterminada; tem muitas camadas, muitas funções, muitos sentidos. Reduzi-la a "perversão" ou "falta de vergonha na cara" é não entender nada de psicanálise. E, pior, é não entender nada de gente.

Voltemos aos Mamonas. "Ser corno ou não ser, eis a minha indecisão."

Hamlet hesita entre ser e não ser. Entre viver e morrer. Entre agir e não agir. O sujeito da música hesita entre aceitar a cornitude ou lutar contra ela. Mas, num nível mais profundo, talvez a indecisão seja outra: entre ser o sujeito do próprio desejo ou ser objeto do desejo alheio. Entre ocupar a posição de quem controla a cena ou a posição de quem é controlado por ela.

A fantasia de ser corno, nessa chave, é uma experimentação com a passividade. É um ensaio sobre o que significa, para um homem criado para ser ativo, dominador, provedor, entregar as rédeas. Mesmo que por alguns minutos. Mesmo que só na cabeça.

Claro, nem todo mundo precisa levar isso tão a sério. Às vezes, um fetiche é só um fetiche. Às vezes, a gente fantasia com coisas estranhas só porque o cérebro é uma máquina de produzir imagens e não tem controle de qualidade. Mas a psicanálise, como ofício, é o lugar onde a gente pergunta: e se essa fantasia estiver dizendo algo sobre você que você ainda não ouviu?

O Mamonas Assassinas, sem querer, tocou num nervo exposto da masculinidade contemporânea. Ser ou não ser já não é só questão de vida ou morte. É questão de que lugar ocupar na cena do desejo. De como negociar com a própria passividade. De como gozar sem precisar comandar.

A psicanálise não tem respostas prontas para isso. Mas tem perguntas. E tem escuta. E tem, acima de tudo, a certeza de que o desejo é mais criativo do que a moral e que, por mais estranho que pareça, ele sempre encontra um jeito de dizer o que precisa ser dito.

Inclusive com uma piada dos Mamonas.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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