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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Filipe De Castro

🚨 Cigarros e Feromônios: A agonia do erotismo no século da transparência

🧠 Reflexão aborda como a pressa dos aplicativos e a obsessão pela imagem mataram o mistério e o jogo da sedução contemporânea

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🚨 Cigarros e Feromônios: A agonia do erotismo no século da transparência
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Cigarros e Feromônios

A primeira vez que vi alguém fumar com vontade foi num filme antigo, preto e branco, que peguei numa sessão da madrugada. A mulher acendia o cigarro, tragava devagar, soltava a fumaça pelo canto da boca enquanto olhava para o homem do outro lado da mesa. Não precisava dizer nada. O cigarro dizia por ela. Era um gesto erótico, um convite, um jogo. Hoje, se alguém acende um cigarro num bar, os outros pensam em câncer, em multa, em cheiro ruim na roupa. O erotismo, ali, morreu junto com o maço.

Não estou fazendo defesa do tabaco. Estou fazendo uma constatação: o século XXI tem um problema com o erotismo. Não que as pessoas tenham parado de transar — estatísticas mostram que transam até menos, mas isso é outra conversa. O problema é outro: o erotismo exige mistério, exige espera, exige aquilo que não está à vista. E o século XXI é péssimo com o que não está à vista.

Os feromônios, essas substâncias que os corpos exalam sem que a gente saiba, são a metáfora perfeita. Você não vê um feromônio. Você não fotografa um feromônio. Você não dá like num feromônio. Você simplesmente sente ou não sente. O feromônio é do campo da presença, não da imagem. E a nossa cultura, hoje, é obcecada pela imagem.

O cigarro funcionava como um feromônio artificial. A fumaça criava uma cortina, um véu, uma distância controlada. O gesto de fumar era uma coreografia que ocupava o tempo, que preenchia o silêncio, que dizia algo sem precisar formular. Fumar era, também, uma forma de estar junto sem estar em cima. Duas pessoas fumando num banco de praça estavam juntas, mas cada uma com seu pequeno universo de fumaça. O erotismo mora nesse espaço: entre o junto e o separado.

Hoje, o que a gente tem? A transparência absoluta. O perfil do Tinder mostra tudo o que você precisa saber antes mesmo de dar um oi. A conversa começa já com a pressa de marcar um encontro, que já vem com a pressa de decidir se vai rolar algo. O que aconteceu com o jogo? O que aconteceu com a demora? O que aconteceu com a possibilidade de passar uma noite inteira sem beijar, só trocando olhares e cigarros, e que isso fosse, por si só, erótico?

A psicanálise tem uma pista. O erotismo, para Freud, estava ligado ao recalcamento. Não é que o proibido fosse mais gostoso, é que o proibido criava um espaço de fantasia. Quando tudo é permitido, quando não há cortina, quando a imagem está sempre à disposição, a fantasia empobrece. Não há o que imaginar. O outro está ali, na tela, nu, disponível. O mistério morreu. E com ele, uma certa qualidade de desejo.

Os feromônios, ao contrário dos perfis de aplicativo, não se escolhem. Eles simplesmente estão lá. Você pode passar horas ao lado de alguém sem sentir nada. E, de repente, sem explicação, alguma coisa no ar muda. Não é racional. Não é uma lista de qualidades. É o corpo falando uma língua que a gente nem sabia que existia. É o erotismo como encontro, não como curadoria.

Tenho pensado que a falta de erotismo no século XXI tem a ver com essa obsessão por eliminar o acaso. Queremos matches certos, conversas que fluam, química garantida. Queremos um algoritmo que nos dê o amor como quem pede comida pelo celular. Mas o erotismo não é garantido. Ele é, por definição, aquilo que escapa. E a gente, hoje, não tem paciência para o que escapa.

O cigarro, por pior que fosse para os pulmões, ensinava alguma coisa sobre paciência. Você acendia, tragava, esperava. A fumaça subia, dissolvia, sumia. Era uma dança lenta, sem objetivo claro. Talvez o que a gente esteja sentindo falta não seja o cigarro, nem os feromônios, mas essa possibilidade de estar junto sem pressa. De não saber onde vai dar. De deixar o tempo fazer alguma coisa.

Numa das últimas cenas de "Casablanca", antes de Rick deixar Ilsa partir, ele acende um cigarro. Não fala nada. A fumaça sobe. Ela olha. Ele olha. É uma despedida, mas é também um encontro. O erotismo, naquele momento, não está no beijo que eles não vão dar. Está no que fica sem ser dito, na fumaça que se dissolve, no tempo que não volta mais.

Hoje, a cena seria diferente. Alguém tiraria o celular, postaria um stories, escreveria "despedidas" com um emoji de coração partido. O mistério morreria ali, na tela. O erotismo, também.

Não estou dizendo que a solução é voltar a fumar. Estou dizendo que talvez a gente precise reaprender o prazer da demora. O prazer de não saber. O prazer de deixar o corpo falar uma língua que o aplicativo não traduz. Os feromônios continuam ali, invisíveis, à espera de quem tenha paciência para senti-los. O problema é que paciência, hoje, parece ter virado artigo de luxo.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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