A AZIA E OUTROS ARROTOS DA ALMA: PEQUENO TRATADO SOBRE O ESTÔMAGO MASCULINO
Porque o homem não chora, mas queima por dentro.
Ele chega ao consultório arrastando a cadeira. Não no divã: homem, quarentão, ainda acha que deitar é coisa de filme. Senta-se, cruza os braços, olha para o lado. Fala do trabalho, do trânsito, da política. No meio da frase, uma pausa. Leva a mão ao peito. Solta um arroto contido, quase educado. "Desculpa, essa azia...". E segue.
Escuto aquilo e penso: a azia é a lágrima do homem moderno.
Não é piada. Clínica, psicanálise, observação cotidiana... tudo aponta para o mesmo fenômeno: o homem médio, criado na cultura do "engole o choro", descobriu um substituto eficiente para a expressão emocional. Ele somatiza. E o órgão de eleição, o queridinho da repressão masculina, é o estômago.
Gastrite, refluxo, esofagite, síndrome do intestino irritável, azia crônica. O homem não diz "estou ansioso". Ele diz "meu estômago queimou". Não diz "estou com medo". Diz "embrulhou". Não diz "estou deprimido". Diz "perdi o apetite". O corpo fala, e fala alto, mas fala numa língua que a medicina chama de ácido e a psicanálise chama de sintoma.
Freud já apontava, nos estudos sobre histeria, que o corpo é um teatro do inconsciente. Mas a histeria, no imaginário popular, era coisa de mulher. O homem, supostamente, somatizava menos ou de forma mais nobre: úlcera de estresse, pressão alta. Bobagem. O homem somatiza tanto quanto qualquer um. A diferença é que ele não pergunta o que o sintoma quer dizer. Ele só quer que pare.
Vamos aos fatos clínicos, disfarçados de anedotas para preservar a identidade alheia:
José, 47 anos, executivo. Três divórcios, dois filhos, uma empresa. Chega com queimação insuportável. Já fez endoscopia, tomou omeprazol, pantoprazol, e mais uns prazóis que eu nem sei pronunciar. Melhora, volta, melhora, volta. Na terceira sessão, depois de um silêncio longo, ele solta: "Meu pai morreu há dois anos. A gente não se falava. Eu nunca... nunca consegui chorar." A azia começou no enterro. O estômago chorou por ele.
Carlos, 34, engenheiro. Namora há cinco anos, não consegue pedir a moça em casamento. "Ela é incrível, mas... sei lá, trava." A trava virou gastrite crônica. O estômago dele, todos os dias, diz o que a boca não diz: não consigo engolir essa decisão.
Marcelo, 52, aposentado precoce. Desde que parou de trabalhar, vive de antiácido. "Nunca tive isso na vida, doutor. Agora parece que até água queima." O que queima, na verdade, é o vazio deixado pela função. Sem o trabalho para ocupar o lugar do desejo, o desejo recalcado voltou — e voltou como fogo no esôfago.
A psicanálise entende a somatização como um retorno do recalcado pela via do corpo real. Quando a palavra não dá conta, quando o afeto não é nomeado, quando o choro é engolido, o corpo vinga. O estômago é um órgão generoso: ele aceita tudo. Engole sapos, engole mágoas, engole a raiva do chefe, a frustração conjugal, o medo do futuro. Engole por décadas. Até que um dia ele diz: chega. Agora você vai sentir. Não como emoção, mas sim como ácido.
Há um dado curioso: a úlcera péptica, tão associada ao "estresse masculino", é muitas vezes tratada como problema bacteriano (H. pylori) ou medicamentoso. E é, sim. Mas por que a bactéria resolve atacar justamente naquele momento? Por que a acidez desregula justamente na véspera daquela reunião, daquela conversa difícil, daquele encontro com o pai? O biológico e o psíquico não são rivais; são cúmplices. A bactéria pode estar lá, mas é o afeto que dá a senha para ela agir.
O tratamento, claro, não é largar a medicação. O omeprazol tem seu valor; ninguém merece viver em chamas. Mas, isoladamente, ele é um calador. Ele silencia o sintoma sem perguntar o que ele veio dizer. E o sintoma, calado, arruma outro jeito de falar: uma dor nas costas, uma enxaqueca, uma crise de pressão.
A proposta da psicanálise não é substituir o gastroenterologista. É ouvir o que o estômago está dizendo enquanto o gastroenterologista cuida da mucosa. É criar um espaço onde o homem possa, finalmente, traduzir a queimação em palavra. Onde o arroto vira frase, a azia vira história, e o ácido, aos poucos, vira lágrima... dessas que correm pelo rosto, não pelo esôfago.
Conheço um paciente que, depois de meses de análise, descobriu que sua gastrite melhorava toda vez que ele conseguia xingar o chefe em sessão. Não precisou fazer isso no trabalho. Mas o simples ato de nomear a raiva, de dar a ela um destino simbólico, acalmou o fogo interno. O estômago, percebeu ele, não precisava mais queimar o que a boca podia dizer.
Homens, escutem: azia não é destino. É mensagem. Antes de tomar mais um antiácido, perguntem: o que está sendo engolido aqui? Raiva? Medo? Tristeza? O nome disso que não sai? O estômago agradece e talvez, só talvez, pare de gritar em fogo para começar a falar em palavras.
E se as palavras não vêm, se o fogo persiste, há um lugar onde se pode aprender essa tradução. Chama-se análise. O divã não tem omeprazol, mas tem escuta. E escuta, para um estômago cansado de engolir, pode ser o antiácido mais potente que existe.
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