VOCÊ QUER O QUE DESEJA?
A pergunta parece simples, até você tentar respondê-la. "Claro que quero", você diz. "Quero ser feliz, quero ter saúde, quero um emprego que não me faça querer morrer antes do almoço." Mas aí você para, pensa, e percebe que não é bem assim. O que você deseja, muitas vezes, é exatamente o oposto do que você quer. Ou pior: você não tem a menor ideia do que deseja. Só sabe que não é isso que está na sua frente.
Já aconteceu comigo. Passei meses desejando um toca-discos. Um daqueles antigos, de madeira, com braço de precisão e agulha de safira. Pesquisei marcas, comparei preços, li fóruns. Comprei. Instalei. Coloquei um vinil. A música saiu, bonita, quente, cheia de estalos que eu fingia achar charmosos. E então, cinco minutos depois, eu já estava pensando em outra coisa. O desejo tinha morrido no momento em que foi realizado. Não porque o toca-discos fosse ruim — era ótimo. Mas porque o desejo não era o objeto. O desejo era o desejo.
Lacan, que gostava de complicar o que já era difícil, disse uma frase que assombra os consultórios desde então: "O desejo é o desejo do Outro." Não, não é uma frase sobre ciúmes. É sobre estrutura: a gente deseja o que o outro deseja. A gente deseja ser desejado pelo outro. A gente deseja o que falta. O desejo, para Lacan, é essencialmente insatisfeito. Se ele se satisfizesse, deixaria de ser desejo. Ele é, por definição, a busca por algo que não está ali.
Os pacientes chegam ao consultório dizendo que querem uma coisa. "Quero encontrar um amor." "Quero mudar de carreira." "Quero emagrecer." E a gente escuta, mas escuta também o que não está sendo dito. Por trás do "quero um amor", há o medo de ficar só. Por trás do "quero mudar de carreira", há o cansaço de ser quem se é. Por trás do "quero emagrecer", há a esperança de que, com o corpo diferente, a vida também se transforme. O que a pessoa quer não é o que ela diz que quer. O que ela quer é o que ela imagina que o objeto vai lhe dar.
Uma paciente, há alguns meses, disse que queria terminar o namoro. "Não amo mais", disse. "Ele é um bom homem, mas não há paixão. Eu quero alguém que me faça sentir viva." Passamos algumas semanas explorando isso. Até que, numa sessão, ela confessou: "Na verdade, o que eu quero mesmo é que ele mude. Que ele seja mais presente, mais intenso. Que ele me veja. Se ele mudasse, eu não precisaria terminar." O que ela queria não era o fim do relacionamento. Era a prova de que podia ser amada de um jeito que ela nunca tinha sido. O desejo estava no outro; ou melhor, na imagem do outro que ela precisava que ele se tornasse.
Freud, que era menos dramático que Lacan, disse algo parecido de outra forma. Ele observou que o ser humano troca o prazer pela realidade, que o desejo é sempre marcado por uma falta, e que o que a gente chama de "felicidade" é, na melhor das hipóteses, uma trégua. Nós queremos acreditar que o desejo pode ser realizado, mas a psicanálise mostra que o desejo é uma força que nunca se esgota e que, se se esgota, vira tédio.
Conheço uma mulher que passou a vida inteira querendo comprar uma casa na praia. Trabalhou, economizou, fez planos. Comprou. Foi passar o primeiro fim de semana lá. Não conseguiu dormir. "Era muito silêncio", disse. "Muito vento. Muito tudo." Vendeu a casa um ano depois. Ela não queria a casa. Queria a ideia de ter uma casa. Queria a sensação de que um dia chegaria lá. O desejo era a espera, não a chegada.
A pergunta que fica, então, é: você quer o que deseja? Ou você deseja o que não quer, só para não ter que encarar o vazio que o desejo esconde? A psicanálise, ao contrário da autoajuda, não tem uma resposta pronta. Ela tem apenas uma proposta: sente-se no divã, fale, associe, se perca nas palavras. E, quem sabe, num desses desvios, você descubra que o que você chamava de desejo era apenas o disfarce de um medo.
Woody Allen, que nunca precisou de psicanalista para ser neurótico, disse uma vez: "Eu não tenho medo da morte. Eu só não quero estar lá quando ela acontecer." É a mesma lógica: a gente quer o que deseja, mas não quer pagar o preço de alcançar. Porque alcançar significa perder o desejo. E perder o desejo, para muitos, é perder a razão de viver.
Fiquei com o toca-discos. De vez em quando coloco um vinil. A música sai bonita. E, nos estalos, ouço o eco de um desejo que ainda não encontrou seu fim.
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