Aguarde, carregando...

Terça-feira, 01 de Setembro 2026
Filipe De Castro

Por que a culpa nunca é de quem conta a história nos relacionamentos?

Uso excessivo de termos como "tóxico" e "narcisista" revela mecanismo de projeção e a recusa em assumir a própria parcela nos conflitos

ContextoSC
Por ContextoSC
Por que a culpa nunca é de quem conta a história nos relacionamentos?
Divulgação
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

SOBRE SER TÓXICO — OU, POR QUE A CULPA NUNCA É DE QUEM TÁ CONTANDO A HISTÓRIA

 

Escuto isso o tempo todo. Não necessariamente apenas no consultório, mas também nas conversas de bar, nos jantares, nos grupos de WhatsApp. "Meu ex era tóxico." "Minha ex era narcisista." "Ele me manipulava." "Ela me fazia gaslighting." Todo mundo tem um ex que merecia um capítulo no DSM. Todo mundo já escapou de um relacionamento que era, segundo a própria versão, uma experiência de sobrevivência.

É possível que todos os ex-parceiros do mundo sejam, de fato, pessoas terríveis. É possível, mas é improvável. A matemática não fecha.

O que fecha, isso sim, é uma lei não escrita da narrativa humana: quem conta a história nunca é o vilão. Você nunca vai ouvir alguém dizer, numa mesa de bar: "Eu terminei o relacionamento porque era insuportável. Não dava para conviver comigo mesmo." Nunca. A pessoa que sai de um casamento diz que a mulher era controladora, não que ele era ausente. Diz que ele era frio, não que ela estava exausta de tentar. O herói da própria história é sempre o narrador. E o narrador, como todo mundo sabe, nunca mente.

A mesma lógica se aplica ao trânsito. Você já reparou? Pergunte a qualquer motorista sobre o acidente que ele sofreu. A culpa nunca é dele. "O outro carro não deu seta." "Entrou sem avisar." "Fechou minha frente." Ninguém diz: "Eu estava distraído." "Eu não vi a placa." "Eu estava acima da velocidade." Não. A culpa é sempre do outro. O outro é o vilão. Você é a vítima. É uma lei universal da psicologia do trânsito, e também da psicologia do amor.

Freud chamaria isso de projeção. O sujeito que não suporta a própria culpa a coloca no outro. Não fui eu que errei, foi ele. Não fui eu que magoei, foi ela. Não fui eu que negligenciei, foram as circunstâncias. A projeção é uma defesa poderosa, e funciona muito bem para aliviar a angústia. O problema é que ela impede o sujeito de aprender qualquer coisa com a experiência.

Porque se todo ex é tóxico, se todo chefe é narcisista, se todo motorista que corta sua frente é um imbecil... o que você está dizendo, no fundo, é que você nunca erra. Você nunca escolhe mal. Você nunca se deixa levar. Você nunca repete padrões. A vida é uma sucessão de injustiças cometidas contra você por pessoas que são sistematicamente piores do que você. E o preço disso, claro, é o isolamento. Porque quem nunca erra também nunca se conecta de verdade.

A psicanálise, ao contrário da narrativa popular, não tem compromisso com a inocência do narrador. Ela desconfia. Ela pergunta: "E você, o que você fez?" "E você, o que você sentiu?" "E você, o que você evitou sentir?" A análise é o lugar onde a história pode ser contada de outro jeito: não para culpar o paciente, mas para devolver a ele a responsabilidade sobre a própria vida.

Aos poucos, a pessoa que passou anos dizendo que todos os seus ex-namorados eram egoístas pode descobrir que escolhia homens egoístas porque, no fundo, achava que não merecia atenção. O problema não eram os homens. Era a crença de que o amor só vinha acompanhado de ausência.

O homem que dizia que todas as suas ex-namoradas eram dramáticas — que sempre arrumavam briga por nada — pode perceber, com o tempo, que chamar de drama a necessidade do outro era uma forma de não ter que se mostrar. O problema não era o drama das mulheres. Era o medo dele de ser visto.

A psicanálise, nesses casos, não faz o papel de tribunal. Não é para julgar quem foi mais tóxico, quem errou mais, quem tem mais razão. É para perguntar: qual é o seu papel nessa história? Não para culpar, mas para devolver ao sujeito a possibilidade de agir. Porque enquanto a culpa estiver toda no outro, você é refém. Você não pode mudar o outro. Você só pode mudar a si mesmo. Mas, para isso, é preciso primeiro reconhecer que você também faz parte do problema.

O motorista que reclama do outro que não deu seta não vai aprender a dirigir melhor. Vai continuar achando que os outros são uns imbecis. A pessoa que reclama do ex tóxico não vai aprender a escolher melhor. Vai continuar repetindo o mesmo padrão, achando que o universo está contra ela. O divã, nesses casos, é o lugar onde a seta finalmente pode ser ligada. Onde o sujeito descobre que, às vezes, a culpa também é dele. E que isso, longe de ser uma derrota, é a primeira condição da liberdade.

Sensata - Saúde do Pensar
Sensata - Saúde do Pensar

ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer tipo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC. 

 

FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
Comentários:
ContextoSC

Publicado por:

ContextoSC

O ContextoSC nasceu com a missão de levar informação de qualidade, imparcial e acessível para todos. Nossa equipe busca apurar os fatos com responsabilidade, sempre priorizando a transparência e o compromisso com a verdade.

Saiba Mais
WhatsApp ContextoSC
Envie sua mensagem, responderemos assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR