Freud Contemporâneo: O Sujeito do Inconsciente contra a Barbárie do Desempenho
Lucas Lujan
O Sujeito da Psicanálise Como Fonte de Resistência
Desde a década de 1970, a racionalidade neoliberal reorganiza as subjetividades para produzir o “empresário de si”, um sujeito convocado para gerir a sua própria vida, afetos e felicidade como um capital produtivo. Diferente do sujeito freudiano, definido pela falta-a-ser e pelo desejo, o sujeito neoliberal é pressionado a ser uma unidade inquebrável de desempenho, produtividade e autossuficiência. A promessa neoliberal é a de um sujeito completo, cujas faltas seriam apenas erros de “gestão emocional” passíveis de correção técnica.
Nesse cenário, o sujeito da psicanálise emerge como uma fonte de resistência vital. Enquanto o mercado neoliberal — e seus braços psicológicos como a Psicologia Positiva — exige que pessoas sejam indivisíveis (indivíduos), receptáculos de otimismo e resiliência, a psicanálise sustenta a divisão subjetiva, o inconsciente e a ética da falta. Ela nos lembra que o ser humano é movido por um desejo que nasce da falta, e não de uma completude funcional. Retornar a Freud hoje significa reivindicar o “direito ao sintoma” contra a pressão por uma transparência absoluta e uma performance ininterrupta que acaba por esgotar o espírito humano.
O Sujeito da Razão Iluminista: Genealogia e Definições
A civilização ocidental inventou seu projeto de identidade a partir do período iluminista, centrando o sistema em um sujeito cuja condição era unificada e guiada pela razão. O marco fundamental dessa concepção é o cogito cartesiano de René Descartes: “penso, logo sou”. Para Descartes, a atividade do pensamento reflete a certeza da existência, estabelecendo uma homologação entre o ser, o pensamento e a consciência. O sujeito iluminista é, portanto, um indivíduo (indivisível) centrado, transparente para si mesmo e capaz de dominar a natureza, o desejo e a própria vida através do conhecimento.
Nesse paradigma, a felicidade deixou de ser uma meta extraterrena (como no cristianismo) para se tornar parte de uma promessa de progresso e desenvolvimento da razão mundana. O Estado moderno assumiu a gestão biopolítica das populações, vinculando o bem-estar ao sucesso da administração racional das condições materiais da existência. O sujeito iluminista é o indivíduo autônomo e racional que fundamenta seus atos no juízo consciente, acreditando que a realidade não encerra mistérios insondáveis para a luz da razão.
O Sujeito da Psicanálise: A Ruptura com a Consciência
Freud operou o que Lacan chamou de “revolução copernicana” ao desalojar o privilégio da consciência. Contrapondo-se ao sujeito da razão iluminista, a psicanálise introduziu o sujeito do inconsciente, marcado por uma clivagem estrutural em seu psiquismo. Se Descartes buscava a certeza no “eu penso”, Freud encontrou sua verdade no “Isso (Es) pensa”, demonstrando que o pensamento é perfeitamente possível sem a assistência da consciência. Uma forma simples de ilustrar essa ideia é refletir sobre o pensador de um sonho. O sonho é um pensamento sem um pensador, uma vez que a consciência está adormecida. Quem sonha é o “Isso”: o sujeito do inconsciente.
O sujeito da psicanálise é, fundamentalmente, o sujeito do desejo, movido por uma falta estrutural. Ele não é mestre em sua própria casa, pois seu psiquismo é regido por leis (processo primário) que escapam ao controle da razão consciente. Enquanto o Iluminismo via o sujeito como uma unidade, a psicanálise o define como um sujeito barrado ($), cuja existência se dá nos intervalos e cortes da linguagem. A subjetividade psicanalítica não busca a completude, mas reconhece na castração simbólica o limite que humaniza o desejo, diferenciando o sujeito do puro real orgânico ou do autômato produtivo.
O Neoliberalismo como Fonte de Sofrimento Contemporâneo
Na contemporaneidade, o ideal da razão iluminista foi capturado pela lógica de mercado, transformando o sujeito naquilo que Byung-Chul Han define como habitante da “sociedade do desempenho”. Saímos da sociedade disciplinar do “dever” (Foucault) para a sociedade do “poder ilimitado” (Yes, we can). No entanto, esse excesso de positividade gera novas formas de violência sistêmica. A partir de uma perspectiva patológica, já vivemos uma época bacteriológica e uma época viral; agora, estamos na época neural.
Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. (HAN, 2015, p. 7)
O sujeito do desempenho, ao tentar ser “o melhor de si”, acaba por se tornar agressor e vítima ao mesmo tempo, em um processo de autoexploração paradoxalmente vivido como liberdade.
A Psicologia Positiva atua como braço técnico dessa racionalidade ao transformar a felicidade em uma obrigação moral e métrica de sucesso. Através da sua “equação da felicidade” (F = L + C + V), ela enfatiza o esforço voluntário (V), deslocando para a pessoa a responsabilidade pela maior parte de seu sofrimento. Se você não é feliz, a culpa é sua: você não geriu bem as suas emoções. Esse imperativo de positividade opera uma recusa da falta, tratando o luto, a angústia e a hesitação como “perdas de tempo” ou falhas de atitude que prejudicam a produtividade. O mal-estar, que Freud apontava como estrutural à civilização, é silenciado em nome de um florescimento artificial.
O Sujeito da Psicanálise como Resistência ao Neoliberalismo
Diante desse cenário, a psicanálise oferece uma resistência ética fundamental. Ela restitui à dor e ao sintoma seu valor de verdade subjetiva, recusando-se a tratá-los apenas como ruídos a serem eliminados para o retorno à produção — daí a sua crítica à medicamentalização do sofrimento. O sujeito da psicanálise, ao habitar sua falta-a-ser, opõe-se ao ideal de completude exigido pelas corporações e moral contemporânea. Em um mundo que exige que sejamos “empreendedores de nós mesmos”, a psicanálise reivindica o direito de não sermos mercadoria, nem ideais nem completos.
A psicanálise sustenta a potência negativa — a capacidade de dizer não, de parar e de não reagir imediatamente a estímulos produtivos. Enquanto o neoliberalismo busca um “neuro-enhancement” (aprimoramento cognitivo) para maximizar o desempenho, a psicanálise escuta o mal-estar como o ponto de partida para a transformação social e singular. Ela devolve à pessoa seu estatuto de sujeito do desejo, cujas aspirações não podem ser reduzidas a indicadores econômicos de bem-estar subjetivo. Escutar o inconsciente hoje é um ato político: é permitir que o sujeito emerja no ponto onde o sistema falha em capturá-lo totalmente.
Conclusão
Portanto, o sujeito do inconsciente faz frente ao sujeito do neoliberalismo ao demonstrar que a vida não cabe em um “projeto de vida” racionalizado ou em um plano de negócios afetivo. Freud permanece relevante porque seu pensamento abre fendas na lógica da exploração e da performance, permitindo-nos habitar nossa singularidade contra a homogeneização cerebral imposta pelo mercado. Em última instância, a psicanálise é a ciência que não foraclui o sujeito, oferecendo-lhe a chance de se reinventar a partir de suas próprias sombras e não apenas sob o brilho artificial de mil sóis produtivos.
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Lucas Lujan é psicanalista e escritor. É pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP. É bacharel em Teologia e realizou sua formação em psicanálise no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP). É pesquisador no Laboratório de Estudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (LATESFIP), da USP, e no Grupo de Pesquisa e Estudos em Religião, Laço Social e Psicanálise (RELAPSO), vinculado à USP e à PUC-SP. É autor dos livros Amar para não ser em vão: notas sobre o amor e Tamanho de Flor, e coautor de Ecos do divã: experiências clínicas e reflexões teóricas na psicanálise; Nós da psicanálise; O dilema do porco-espinho e a solidão que nos atravessa; Crônicas de um amor crônico; e Aglomerados. |
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