O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO - OU DA PEQUENA ANATOMIA DO DESEJO DE SER CANCELADO
Eu tenho alguns sonhos esquisitos. Não aqueles clássicos, de cair no abismo ou aparecer nu na sala de aula. Os meus são mais… pretensiosos. Um deles, confesso com alguma vergonha, é o de ser cancelado.
No sonho, vejo meu nome estampado em manchetes. As pessoas discutem minha existência com a mesma seriedade com que discutem cláusulas constitucionais. Sou, finalmente, alguém sobre quem é preciso tomar uma posição. Acordo aliviado e, logo em seguida, decepcionado. A realidade, sóbria e impiedosa, me devolve ao meu lugar: o do intelectual medíocre que jamais será digno do cadafalso.
Porque, convenhamos, o cancelamento é uma honraria. Não é para qualquer um. É preciso ter alguma estatura simbólica para que seu erro — real ou fabricado — mereça o espetáculo da execução pública. Ser cancelado é, de certa forma, ter existido para os outros. O medíocre não é cancelado; ele é apenas ignorado, que é uma forma de morte mais silenciosa e, suspeito, mais definitiva.
Esta fantasia grotesca me fez pensar na guilhotina.
Não por acaso. Ambas são máquinas de decapitação. Uma decapita o corpo; a outra, a imagem, a carreira, a circulação social do sujeito. Ambas são tecnologias da pressa: o corte limpo, rápido, sem resíduos. Ambas exigem uma plateia. E ambas, no fundo, partilham de uma mesma ilusão: a de que, removida a cabeça, o monstro morre.
A Revolução Francesa acreditou, com fé comovente, que a guilhotina era um instrumento humanitário — mais rápido, menos cruel que o cadafalso medieval. O dr. Joseph-Ignace Guillotin, seu padrinho involuntário, via nela um avanço civilizatório. O corte indolor, a igualdade perante a morte. Nobres e plebeus perdiam a cabeça com a mesma elegância mecânica. O que ele não previu é que a eficiência da máquina alimentaria o apetite do público. Quanto mais rápida e limpa a execução, mais corpos eram necessários para sustentar o espetáculo.
Nosso cancelamento digital funciona assim. Cada "corte" bem-sucedido gera a demanda pelo próximo. As redes sociais são o novo Place de la Révolution, com suas filas virtuais de candidatos ao cadafalso. O algoritmo, nosso Carnot moderno, aperfeiçoa a lâmina a cada dia. E nós, o público, estamos lá com nossos cestos de costura, tricotando calmamente enquanto a lâmina cai, como as tricoteuses que acompanhavam as execuções parisienses com a indiferença de quem vê o tempo passar.
A psicanálise tem algo a dizer sobre isso. O cancelamento é uma operação de purificação. Ele expulsa o mau elemento para que o grupo possa sonhar, mais uma vez, com sua própria pureza impossível. É a lógica do bode expiatório, que René Girard descreveu com precisão cirúrgica: a violência coletiva unifica a comunidade contra uma vítima escolhida. O problema e a tragédia é que a vítima é sempre, também, um espelho. Odiamos nela aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos.
Daí meu sonho patético.
Ser cancelado seria, neste sentido, ser finalmente reconhecido como alguém digno de espelhar o horror alheio. Uma espécie de promoção ontológica. "Este homem, parece dizer a multidão digital, cometeu um erro tão significativo, tocou em ferida tão sensível, que precisa ser aniquilado." É uma forma perversa, mas inegável, de importância.
Claro, não chego nem perto disso. Para ser cancelado, é preciso antes ser visto. E a visibilidade, hoje, exige mais do que talento ou ideias. Exige um certo talento para a exposição calculada, para o pênalti que se comete sabendo que há um goleiro e milhões de espectadores. O intelectual medíocre não erra com grandeza; ele apenas tropeça em silêncio, no quarto vazio da sua própria irrelevância.
Há, contudo, uma diferença crucial entre a guilhotina e o cancelamento. O cadafalso, ao menos, sabia quando seu trabalho terminava. Uma cabeça, um corpo, uma execução. Depois, silêncio. A guilhotina não ressuscitava suas vítimas para novo julgamento na semana seguinte.
O cancelamento, não. Ele é eternamente reencenado. O erro, real ou imputado, não prescreve. Fica ali, disponível para convocações futuras, reativado por qualquer novo contexto. O condenado não morre; ele se torna um morto-vivo digital, carregando para sempre sua cabeça decepada debaixo do braço, obrigado a explicar, em entrevistas e notas oficiais, por que ainda sangra.
Talvez seja melhor, afinal, ser apenas um intelectual medíocre. Invisível, incancelável, indiferente aos apelos da multidão. Meu cadafalso particular é este papel, esta caneta, este divã onde pacientes me contam seus medos de serem decapitados por uma frase infeliz dita há dez anos. Ouço, e penso: a guilhotina, pelo menos, era honesta. Ela não prometia redenção. Nós, hipócritas, prometemos o perdão e o retiramos no minuto seguinte.
Sonho com meu cancelamento. Acordo, faço café. A lâmina, por enquanto, ainda não desceu. E, no fundo, sei que nunca descerá para quem, como eu, ainda teme menos a queda do que a indiferença do cadafalso vazio.
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