O PASSADO QUE NÃO PASSA: TRAUMA E SILÊNCIO
Há uma frase que se escuta com frequência quando o assunto é trauma. A pessoa conta, meio de lado, meio sem querer, algo que aconteceu há décadas e completa, quase como um refrão: "Mas isso foi há tanto tempo, já não mexe mais comigo."
A psicanálise, desde os seus primeiros dias, aprendeu a desconfiar dessa afirmação. Não por cinismo, mas por escuta. O que a clínica mostra, ano após ano, é que o tempo cronológico tem pouca influência sobre o tempo psíquico. Para o inconsciente, não existe "há tanto tempo". Existe apenas o agora; o agora da lembrança que dói, o agora do sintoma que volta, o agora do corpo que lembra o que a mente preferiu esquecer.
A ideia de que experiências traumáticas podem ser simplesmente arquivadas e abandonadas é uma das ilusões mais persistentes da cultura contemporânea. Ela alimenta a fantasia de que a gente pode superar qualquer coisa com força de vontade, com tempo, com esquecimento. Mas o trauma não é um arquivo morto. É uma ferida que não cicatrizou porque nunca pôde ser tratada; nunca pôde ser chorada, nomeada, testemunhada.
Freud percebeu isso no final do século XIX, ao ouvir suas pacientes histéricas. Mulheres com paralisias sem lesão, dores sem causa, cegueiras sem dano nos olhos. O que ele descobriu, para espanto da medicina da época, é que aqueles corpos falavam uma língua que ninguém ensinara: a língua do recalcado. Coisas que não podiam ser ditas, lembradas, sentidas... o corpo lembrava por elas. O corpo virava arquivo, testemunha, denúncia.
Não eram fingimento. Não era "frescura". Era o retorno, disfarçado de sintoma, daquilo que não pudera ser elaborado.
O conceito é simples e profundo: conteúdos psíquicos — memórias, afetos, desejos — que são excluídos da consciência por serem insuportáveis não desaparecem. Eles permanecem ativos no inconsciente e, mais cedo ou mais tarde, retornam. Não retornam como lembrança nítida, porque a consciência ainda não pode suportá-los. Retornam como sintoma: angústia sem causa, fobias inexplicáveis, dores no corpo, dificuldades nos relacionamentos, sensações difusas de que algo está errado.
O retorno do recalcado é a vingança do passado contra a ilusão de que ele passou. É o corpo que resolve falar quando a boca foi calada. É a noite mal dormida, o pânico ao entrar num elevador, a dificuldade de confiar em quem se aproxima demais. É, também, a certeza silenciosa de que há algo de errado consigo mesmo; uma culpa que não se justifica, uma vergonha que não se explica.
No caso do abuso sexual, esse mecanismo é particularmente cruel. Porque, ao trauma original, soma-se o silêncio. A criança abusada muitas vezes não tem palavras para o que aconteceu. Ou, se tem, aprende rápido que não deve usá-las. "Não conta pra ninguém", diz o abusador. "Ninguém vai acreditar em você." "Você vai destruir a família." E a criança obedece. Guarda o segredo. Enterra a memória num lugar fundo, onde espera que ela morra.
Mas a memória não morre. Ela apenas espera. Espera a primeira relação sexual para mostrar sua cara na forma de dor ou repulsa. Espera o nascimento de um filho para disparar uma angústia sem nome. Espera o momento em que o corpo, finalmente, diz não aguento mais.
A psicanálise contemporânea tem estudado cada vez mais o papel da dissociação no trauma. Diante de experiências insuportáveis, a mente não apenas recalca: ela se divide. Pedaços da experiência são cindidos, guardados em compartimentos estanques, como se não pertencessem à mesma pessoa. É um mecanismo de sobrevivência: para continuar vivendo, a criança precisa acreditar que aquilo não aconteceu, ou que não foi com ela, ou que ela não era ela naquele momento.
O problema é que esses pedaços dissociados não ficam inertes. Eles vazam. Vazam em pesadelos, em reações desproporcionais, em sensações de estranheza diante do próprio corpo. Vazam na dificuldade de estabelecer vínculos íntimos, porque a intimidade, de alguma forma, lembra o perigo. Vazam na vida adulta como um vago mal-estar que nenhum sucesso profissional, nenhum relacionamento estável, nenhuma conquista conseguem aplacar.
Pessoas que sofreram abuso muitas vezes desenvolvem uma incrível capacidade de funcionar. Estudam, trabalham, constroem carreiras, formam famílias. Por fora, tudo parece bem. Por dentro, há uma região interditada, um quarto trancado cuja chave foi jogada fora. Mas o conteúdo daquele quarto não descansa. Ele trabalha. Trabalha nas entranhas, minando a capacidade de sentir prazer, gerando aquela sensação difusa de que se está sempre representando um papel.
Viver com um trauma não elaborado tem um custo. Ele cobra em relacionamentos sabotados, em carreiras interrompidas pela depressão, em filhos que sentem a ausência emocional dos pais sem saber por quê. Cobra na incapacidade de sentir prazer, no sexo vivido como obrigação ou como campo minado, na sensação de que há algo fundamentalmente errado consigo mesmo.
O silêncio não protege. O silêncio adoece. Porque o que não é dito não desaparece, apenas muda de endereço. Vai para o corpo, vai para os sintomas, vai para as relações que se repetem sem que a gente entenda por quê. Vai para aquela sensação vaga de que a vida podia ser mais, mas não é.
Há quem passe a vida inteira assim. Funcionando, mas não vivendo. Presente, mas não inteiro. Cercado de pessoas, mas profundamente só. O trauma não elaborado isola. Cria uma redoma invisível que separa a pessoa do mundo e, principalmente, de si mesma.
Não há "superação" no sentido de apagar o que aconteceu. O que a psicanálise oferece é mais modesto e, ao mesmo tempo, mais profundo: um lugar onde o segredo pode, finalmente, ser dito em voz alta. Onde a vergonha pode ser nomeada sem ser julgada. Onde a criança que foi abusada pode, enfim, ser acolhida pelo adulto que se tornou.
O trabalho não é fazer o trauma desaparecer — isso não acontece. É integrar as partes dissociadas. É trazer para a narrativa da vida aquilo que foi cindido, para que deixe de ser um agente oculto governando a existência. Para que, em vez de agir por meio de sintomas, possa ser pensado, sentido, elaborado.
Quando alguém consegue dizer, pela primeira vez, "aconteceu comigo. Eu era criança. Não foi minha culpa", algo muda. Não dramaticamente. Não como nos filmes. Mas num tom mais baixo, mais real. O corpo relaxa um pouco. O peso nos ombros diminui. O monstro, ao ser nomeado, perde parte de seu poder.
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