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Domingo, 26 de Abril 2026
Filipe De Castro

O corpo alerta: impotência sexual pode ser o principal sintoma da depressão oculta em homens

A disfunção erétil muitas vezes reflete esgotamento emocional e pressão excessiva por performance, indo além de problemas puramente físicos

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Por ContextoSC
O corpo alerta: impotência sexual pode ser o principal sintoma da depressão oculta em homens
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O SILÊNCIO DOS ÓRGÃOS: NOTAS SOBRE IMPOTÊNCIA, DEPRESSÃO E A MORTE DO DESEJO

Quando o corpo para de mentir, e o homem fica diante do que sua performance tentava calar.

 

Um homem chega ao consultório. Fala do trabalho, da crise econômica, do cansaço. Fala por cinquenta minutos. No final, quase como uma piada ruim, solta: “Ah, e também… não está mais subindo, sabe?”. O “sabe” é um pedido de cumplicidade e um grito de socorro. A frase vem carregada de uma vergonha que parece pré-histórica.

A impotência sexual ou, no termo mais gentil e preciso, a disfunção erétil, raramente é apenas um problema vascular ou hormonal. Na maioria das vezes, é a ponta visível de um iceberg depressivo. É o corpo, cansado de ser o palco de uma performance que a psique não sustenta mais, simplesmente baixando o pano. O pênis, afinal, não é um músculo autônomo. Ele é o termômetro mais íntimo do desejo, e o desejo é a primeira vítima de qualquer depressão.

A depressão masculina tem um disfarce peculiar. Ela raramente se veste de tristeza profunda e choro. Ela se veste de irritabilidade, de excesso de trabalho, de isolamento silencioso no escritório ou na garagem. E, por fim, se veste de silêncio genital. É como se o homem, incapaz de nomear seu esvaziamento emocional (“não sei o que sinto”), começasse a experimentá-lo no lugar onde sua masculinidade foi, socialmente, mais codificada: na falência do falo.

Na cultura, o pênis ereto é símbolo de potência, conquista, domínio. Sua negativa em funcionar, portanto, não é lida como sintoma, mas como fracasso ontológico. O homem não pensa: “meu desejo adoeceu”. Ele pensa: “eu deixei de ser um homem”. É uma condenação muito mais profunda e cruel.

A psicanálise nos ensina que a impotência é, muitas vezes, uma solução. Uma solução desesperada, custosa, mas ainda assim uma solução. É o jeito que o inconsciente encontra de dizer: “Chega. Não dou mais conta de sustentar essa imagem de potência, de provedor, de máquina sexual infalível. Desativo o sistema.” É um ato falho corporal, mas de uma eloquência brutal. O corpo, que durante anos foi usado como ferramenta de trabalho e de performance, faz greve. E nessa greve, obriga seu dono a olhar para o que estava sendo soterrado: a angústia, o medo, o luto não elaborado, a raiva voltada para dentro.

O tratamento, portanto, não pode ser apenas a busca pela reinstalação da função. Isso seria como consertar o alarme de fumaça de uma casa que está em chamas e achar que resolveu o problema. É preciso perguntar: a serviço de que essa performance estava? Que ideal esmagador de masculinidade esse homem está tentando (e falhando) atingir? Contra quem ou o que sua ferramenta se volta, paradoxalmente, ao se recusar a funcionar?

A recuperação não começa com um comprimido azul. Começa com a permissão para a fragilidade. Com a possibilidade de dizer, em voz alta, no espaço protegido do analista: “Estou cansado. Estou com medo. Não sei mais quem sou.” O retorno da função sexual, quando vem, vem como subproduto de um processo muito mais profundo: o de reconciliação do homem com sua própria humanidade, que inclui a vulnerabilidade, a dependência e a aceitação de limites.

No divã, trabalhamos para transformar o pânico da impotência em pergunta sobre o desejo. Porque no fundo, a questão não é “por que não sobe?”, mas “para que, e para quem, você precisava que subisse tanto, por tanto tempo?”.

O caminho de volta à potência — sexual e vital — passa, ironicamente, pelo abandono da necessidade de ser potente o tempo todo. Passa pelo reconhecimento de que o verdadeiro ato de coragem, para um homem hoje, pode ser justamente ficar de pé, diante de sua própria queda.

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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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