DUAS MENTIRAS E UMA SÉRIE
Há duas grandes mentiras sobre psicanalistas. A primeira: que somos malucos. Não somos. Somos apenas pessoas que escolheram passar décadas escutando os outros para não ter que escutar a si mesmos — o que, reconheço, pode ser classificado como um tipo de loucura, mas uma loucura organizada, com diploma e horário marcado. A segunda mentira: que não somos afetados por nada. Essa é mais grave, e mais difundida. Há uma imagem do analista como uma espécie de monge zen do inconsciente, imune às tentações do mundo, sentado na poltrona com um olhar que tudo vê e nada sente. Bobagem. Sentimos. Sentimos muito. Só que aprendemos a disfarçar. É o que nos diferencia dos pacientes: eles ainda não aprenderam.
Eu, por exemplo, não posso ser fisgado por uma série. Se sou, é um desastre. Naquele exato momento, minha vida entra em suspensão, e eu começo a reconsiderar tudo. A profissão, a cidade, o corte de cabelo. O futuro inteiro se reconfigura diante de uma tela de 32 polegadas. Já quis usar boina com navalha e comprar um cavalo quando assisti a Peaky Blinders. Passei semanas caminhando devagar, olhando para o horizonte, imaginando que cada sombra no beco era um inimigo à altura. O cavalo não veio, graças à sanidade da minha ex mulher e ao preço do pasto em São Ludgero. Mas a boina... a boina quase foi.
Depois veio Os Sopranos. Aí foi pior. Não quis mais usar boina. Quis usar terno escuro, camisa preta, andar em restaurantes que se autodenominam ristorante e pedir expresso curto em xícaras minúsculas. Descobri que tenho um talento natural para fazer pausas ameaçadoras antes de responder perguntas simples. "O que você quer para o jantar?" Silêncio. Suspense. "A gente vê." Minha ex mulher não suportou e pediu divórcio.
Agora, a vez é Dr. House. Estou reassistindo. E já começo a sentir os sintomas. Quero ser médico diagnosticador. Não médico qualquer: médico chato, rabugento, que trata paciente como problema de lógica e a vida como um enigma a ser decifrado. Já falaram que me pareço com ele: olhos claros, barba grisalha, olhar afiado para o sofrimento alheio, inconoclasta, mau humor duvidoso e respostas cínicas. Falta-me andar mancando e uma bengala. A bengala, confesso, me atrai. É um acessório que grita "autoridade" e também "posso bater em você se necessário".
O que me consola é saber que não estou sozinho nessa neurose de estimação. Lacan, que era um homem de costumes excêntricos (fazia consultas de quinze minutos, usava gravata-borboleta e falava de forma que ninguém entendia), disse uma vez que o desejo é o desejo do Outro. Traduzindo: a gente não sabe o que quer. A gente quer o que vê o outro querer. Ou o que vê o personagem da TV querer. House quer curar o caso impossível. Então eu quero curar o caso impossível. Tony Soprano quer respeito e uma boa pizza. Então eu quero respeito e uma boa pizza. Thomas Shelby quer poder e um cavalo. Então eu quero poder e um cavalo — mesmo sem saber montar.
A psicanálise chama isso de identificação. É o mecanismo pelo qual a gente incorpora traços do outro. Acontece na infância, com os pais, e continua na vida adulta, com os personagens de ficção. A diferença é que, quando criança, a gente queria ser bombeiro. Quando adulto, a gente quer ser um mafioso depressivo com problemas de mãe. É um progresso, de certa forma.
O problema não é se identificar com personagens. O problema é quando a identificação vira projeto de vida. Quando você acorda um dia e percebe que comprou uma bengala, está mancando de propósito e responde aos pacientes com frases de efeito dignas de um seriado médico. Aí, talvez, seja hora de considerar que a análise não está funcionando ou que está funcionando bem demais.
Enquanto isso, sigo reassistindo Dr. House. Já na quarta temporada. A barba está mais grisalha. O olhar, mais afiado. Ainda não manco. Mas, quando alguém me pergunta "o que você tem?", penso em responder: "Não sei. Mas vou descobrir. E vai ser na última cena."
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