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Quarta-feira, 27 de Maio 2026
Filipe De Castro

🧼 Do pânico moral da mamadeira de p1r0c@ ao fetiche do detergente: a psicanálise da nova política brasileira

🧻 Casos de pessoas que ingerem produto reprovado pela Anvisa revelam como objetos cotidianos perdem a função e viram totens ideológicos

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Por ContextoSC
🧼 Do pânico moral da mamadeira de p1r0c@ ao fetiche do detergente: a psicanálise da nova política brasileira
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DETERGENTE YPÊ, MAMADEIRAS DE P1R0C@ E OBJETOS FÁLICOS

Não é a primeira vez que a política brasileira se rende a objetos de limpeza. Nos idos de 2020, a direita descobriu que uma mamadeira com formato fálico — apelidada carinhosamente de "mamadeira de piroca" — seria o símbolo máximo da degeneração esquerdista. A história era tão absurda que parecia roteiro de comédia pastelão, mas foi levada a sério por uma parcela considerável da população. A mamadeira, supostamente, ensinaria as crianças a fazer sexo oral. O objeto, em sua materialidade fálica, despertava pânicos edipianos insondáveis.

Agora, em 2026, o detergente Ypê assume o mesmo lugar no imaginário. Não por sua função — limpar louça — mas por sua forma. O frasco verde, alongado, com um bico aplicador que mais parece uma prótese peniana, tornou-se o novo totem. A Anvisa diz que o produto está contaminado por bactérias. A direita, então, decide que a Anvisa é inimiga. E a prova de que a Anvisa está errada? Tomar banho com o detergente. Ou, nos casos mais heroicos, beber.

Woody Allen diria que a psicanálise explica tudo, mas que explicar não resolve nada. Ele teria razão. Mas vamos tentar explicar mesmo assim.

Freud passou a vida tentando entender por que os seres humanos são tão obcecados por objetos que se parecem com outras coisas. Descobriu que o falo não é o pênis. O pênis é um órgão. O falo é um símbolo. É aquilo que falta, que se deseja, que se teme. Na mamadeira de piroca, o falo aparece como objeto de censura: algo tão perigoso que precisa ser banido para salvar as crianças. No detergente Ypê, o falo aparece como objeto de defesa: algo tão sagrado que precisa ser ingerido para salvar a pátria.

O que une os dois fenômenos é a mesma operação lógica: a política como fetiche. O objeto perde sua função original (amamentar, limpar) e ganha uma função simbólica (resistir, pertencer, gozar). Quem toma banho de detergente não está limpando o corpo. Está performando uma identidade. Quem defende a mamadeira de piroca não está pensando em nutrição infantil. Está lutando contra um inimigo imaginário.

Lacan, que nunca usou detergente na vida (certamente tinha empregada), diria que o gozo está ali, naquela substância que arde na pele e queima na garganta. O sujeito que ingere o detergente contaminado não busca prazer. Busca o gozo (aquela satisfação paradoxal que vem do mal-estar). É o mesmo gozo que move o masoquista: "Dói, logo existo." Ao beber o produto químico, o fiel diz: "Sofro, logo resisto. Ardo, logo pertenço."

Claro, há uma diferença crucial entre a mamadeira e o detergente. A mamadeira era um produto de uso infantil que nunca chegou a ser fabricado em escala. Era um pânico moral sem prova material. O detergente, ao contrário, está ali, na prateleira do supermercado, verde, fálico, convidando à performance. E a Anvisa, ao recolher o produto, fez o papel de Superego: "Isso faz mal. Isso é proibido." O Superego, como se sabe, nunca é obedecido. Ele é desafiado. Beber o detergente é o "cala a boca" endereçado à agência reguladora.

O trágico, porém, é que o corpo paga o preço. O Superego volta, mas agora na forma de diarreia, vômito, queimação. O sujeito que bebeu o detergente para provar que não tinha medo acorda no dia seguinte com um corpo que o contradiz. A política, afinal, não digere produto químico. E o intestino, ao contrário dos influenciadores, não tem lado político.

Woody Allen, numa cena clássica, tenta suicídio abrindo o gás do fogão. A vizinha entra, abre a janela, e ele diz: "Não, não, estou tentando me matar. Fecha a janela." É o humor da contradição. O sujeito que bebe detergente para defender uma marca está, no fundo, tentando uma forma de suicídio performático. Só que, em vez da janela aberta, há a ambulância chamada. E em vez da platéia rir, a platéia aplaude. Até o próximo meme.

Não tenho uma conclusão elegante para esta coluna. A psicanálise não oferece soluções para quando a louça vira bandeira e o veneno vira prova de amor. Oferece apenas uma pergunta: que tipo de sujeito precisa se envenenar para se sentir vivo? E a resposta, desconfio, é mais triste do que o detergente.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe de Castro
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