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Sexta-feira, 17 de Julho 2026
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Filipe De Castro

Corpos em excesso, vidas em falta: o peso do consumo e da estética na saúde mental

Em artigo, psicólogo analisa como a supervalorização da imagem corporal e a ditadura da performance moldam os sofrimentos alimentares contemporâneos

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Por ContextoSC
Corpos em excesso, vidas em falta: o peso do consumo e da estética na saúde mental
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Corpos em excesso, vidas em falta 

Os transtornos alimentares são tradicionalmente reconhecidos pela psiquiatria como condições relacionadas a uma relação problemática com a alimentação e com a imagem corporal. Essa compreensão mais clássica, muitas vezes, acaba deixando em segundo plano aspectos sociais e culturais que atravessam nossa forma de viver.

Se compararmos os transtornos alimentares a outras psicopatologias, poderíamos pensar que apresentam baixa incidência. Entre eles estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar. No entanto, observamos cada vez mais sinais e sintomas que poderiam ser chamados de sofrimentos alimentares contemporâneos, diretamente ligados ao mal-estar em relação ao corpo e à alimentação.

A insatisfação faz parte da condição humana. Sempre existe algo que nos falta e que, em muitos casos, nos impulsiona a buscar mudanças. Mas, quando falamos sobre alimentação e imagem corporal, entramos em um terreno delicado, cercado por discursos muitas vezes enganosos sobre saúde, amplamente difundidos pela lógica do consumo.

Um exemplo disso é a redução da imagem corporal à estética. Não vivemos apenas sob a chamada ditadura da magreza, ainda muito presente em nossa sociedade. Também somos constantemente atravessados por exigências sobre quanto devemos investir em procedimentos estéticos, academias, produtos para a pele, cabelo e fortalecimento muscular.

Há um preço alto a ser pago, e ele vai além do aspecto financeiro — embora seja caro acompanhar tudo o que é vendido como necessidade. Existe também um custo subjetivo: uma espécie de aprisionamento à imagem, em que quem somos passa a ser reduzido às medidas corporais, aos músculos aparentes e ao formato do corpo.

Por meio da aparência, muitas vezes passamos a medir sucesso e fracasso, saúde e doença. Em uma sociedade onde grande parte da população ainda enfrenta dificuldades para acessar alimentação adequada e condições básicas de vida, frequentemente as diferenças sociais são expressas pelo consumo e pela imagem que se consegue exibir.

Surge então um impasse: se vivemos em uma sociedade movida pelo consumo, pela supervalorização da estética e pela busca de um corpo performático, como identificamos os transtornos alimentares? Quais são os limites entre uma preocupação comum com peso e aparência e um sofrimento que sinaliza excesso de exigência sobre si mesmo?

Se sucesso significa ter cintura fina, músculos definidos, exercitar-se diariamente, participar de maratonas, restringir alimentos e consumir produtos prometidos como indispensáveis para o desempenho e a aparência, como não se sentir insuficiente diante do nosso próprio tempo?

É nesse cenário que aparecem os sofrimentos alimentares como marcas de uma sociedade marcada pelos excessos, pelo vazio de sentidos próprios e pelo medo constante alimentado pela gordofobia presente em nosso modo de olhar o mundo.

Quem são os profissionais da saúde que discutem essas questões? Qual é a responsabilidade de influenciadores e criadores de conteúdo que vendem produtos e estilos de vida nas redes sociais? Qual é o impacto disso na saúde mental de uma população que, muitas vezes, enfrenta dificuldades até mesmo para garantir a alimentação da semana?

Sabemos que a obesidade é um importante problema de saúde pública. No entanto, pouco discutimos os efeitos das desigualdades sociais sobre essa realidade. Muitas vezes tratamos como fracasso individual a dificuldade de alguém manter uma dieta restritiva. Repetimos constantemente que atividade física melhora a saúde mental.

Vemos academias modernas surgindo em todos os lugares, enquanto também observamos o crescimento das farmácias, o aumento de jovens com hipertensão, depressão, ansiedade e diabetes tipo 2. Estamos produzindo adoecimento na mesma velocidade em que produzimos soluções que, aparentemente, não têm dado conta do problema.

Para compreender os sofrimentos alimentares, precisamos ir além dos diagnósticos. Precisamos perguntar que tipo de sociedade estamos construindo, o que ela oferece como resposta às nossas insatisfações e de que forma estamos aprendendo a viver permanentemente insatisfeitos.

Maurício Lopes

Psicólogo

Professor do curso de Psicologia UNISUL

Mestre em Psicologia (UFSC)

Doutorando em Ciências da Saúde (UNESC)

Sensata - Saúde do Pensar
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ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer típo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC. 

FONTE/CRÉDITOS: Maurício Lopes
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