O ÓDIO PELA MULHER FUNDA O OCIDENTE
O feminicídio não é um descontrole. Não é "crime passional". Não é um ato de ciúme que saiu do controle. O feminicídio é a ponta visível de uma estrutura que a psicanálise e a literatura tentam nomear há mais de dois milênios. É a materialização de um ódio que não é contra uma mulher em particular: é contra o que ela representa. É contra a alteridade, contra o desejo que não se controla, contra a autonomia que desafia a ordem.
A expressão odium mulieris (ódio às mulheres) aparece na obra do orador romano Cícero, no século I a.C. Ele a definiu como uma aegrotatio animi, uma doença da alma. E foi mais longe: disse que essa doença nasce do medo daquilo que se foge e se odeia. O que Cícero intuiu, sem saber, é que o ódio ao feminino não é um sentimento primário. É uma defesa. Uma defesa contra algo que ameaça a identidade masculina, que a psicanálise chamaria de angústia de castração.
As duas figuras fundadoras do ódio às mulheres no Ocidente são Pandora e Eva. Ambos os mitos. Ambas as mulheres. Ambas responsabilizadas por todos os males do mundo. Pandora, a primeira mulher da mitologia grega, foi criada por Zeus como punição. Sua curiosidade, seu ato de abrir a jarra proibida, libertou todos os males sobre a humanidade. Hesíodo a descreve como um "belo mal" (kalon kakon). A beleza que engana, o presente que é veneno.
Eva, sua herdeira judaico-cristã, repetiu o gesto. Mordeu o fruto, condenou a humanidade, e com ela a dor do parto e a sujeição ao homem. A tradição interpretativa, porém, não é inocente. Adão estava presente. Assistiu ao diálogo com a serpente. Comeu o fruto com Eva. Mas a culpa recaiu sobre ela. O cristianismo nascenta, contaminado pela retórica misógina grega, fez de Eva a Pandora judaico-cristã. A mulher, mais uma vez, carregou o fardo do mal.
O que esses dois mitos instituem é uma estrutura: a mulher como aquela que abre a jarra, que come o fruto, que desobedece. A mulher como princípio do caos, do descontrole, do perigo. O homem, nessa lógica, é o guardião da ordem. Sua função é conter, controlar, dominar. E quando o controle falha, quando a mulher não se submete, quando ela diz "não", quando ela tenta ir embora... a estrutura exige uma resposta. A resposta é a violência.
A psicanálise, ao escutar o feminicídio, não busca desculpas para o assassino. Busca compreender a estrutura que o torna possível. Freud mostrou que o ciúme patológico é uma defesa contraimpulsos insuportáveis. É o homem projetando no outro seus próprios desejos, seus próprios medos, sua própria fragilidade. A mulher, nessa dinâmica, não é um sujeito. É um espelho. Um espelho que reflete o que ele não suporta ver em si mesmo.
Lacan, décadas depois, aprofundou essa intuição. O desejo do homem é o desejo do Outro. Ele deseja o que o outro deseja. Ele deseja ser desejado pelo outro. A mulher, nesse jogo, ocupa o lugar de objeto: o objeto que falta, que se busca, que se tenta possuir. Mas o objeto, quando possuído, perde seu poder. O desejo não se satisfaz. A posse não preenche. O que sobra é a angústia. E a angústia, para o sujeito que não suporta a própria fragilidade, se transforma em raiva. A raiva se transforma em violência. A violência, em morte.
O corpo enrolado em cobertores, trancado no quarto, não é um ato de fúria. É a materialização de uma lógica que vem de muito longe: a mulher como objeto de posse. Quando ela tenta se libertar, o objeto se rebela. E a única resposta possível, para quem não suporta a alteridade, é aniquilar o objeto. Não por ódio àquela mulher, mas por ódio ao que ela representa: a possibilidade de perda, de controle que escapa, de desejo que não se submete.
Não há amor no feminicídio. Há medo. Medo do que a mulher desperta no homem e que ele não pode dominar. Medo de sua própria dependência, de sua própria fragilidade, de seu próprio desejo. A violência é a defesa desesperada contra esse medo.
O que a psicanálise pode oferecer a essa escuta? Não respostas prontas, nem explicações que justifiquem o injustificável. A psicanálise não é uma ciência que explica a violência. É uma prática que escuta o que a violência revela. E o que ela revela, nesses casos, é a misoginia estrutural que funda o Ocidente, a lógica de controle e posse sobre o corpo feminino: o quarto trancado, a liberdade negada, o coração silenciado. Uma dor que não cabe na alma, mas que encontra no corpo a única forma de expressão que a cultura lhe permite.
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