A TORO E EU
Tive um breve romance com uma pianista no fim do ano passado. Breve no sentido cronológico — durou o que durou um vinil de lado A e lado B. Mas intenso o bastante para que ela tenha deixado uma marca. Não uma marca sentimental dessas que a gente chama de amor. Uma marca mais concreta, mais irritante, mais cotidiana: o carro dela.
Uma Toro. Branca. Daquelas que parecem um mistério entre picape e SUV, como se tivesse sido projetada por alguém que não conseguia decidir o que queria ser quando crescesse. Pois bem. A última coisa que fizemos juntos foi ir, no carro dela, atrás de discos de vinil em Florianópolis. Ela tocava Chopin com as mãos eretas, e eu, bobo, achei que dar um toca-discos de Natal para uma pianista era uma ideia romântica. Talvez fosse um presente para mim, não para ela. Uma forma de ouvi-la tocar sem precisar pedir.
Passamos o dia em lojas de discos. Voltamos com Schumann, Chopin, e uma edição antiga de Bill Evans que ela disse ser rara. Não sei se era. Mas o sorriso dela quando encontrou era raro o bastante. No fim da tarde, a Toro cortou a BR-101 devagar, com os discos no banco de trás e o som do motor fazendo companhia ao silêncio entre as músicas.
Pois bem. O romance terminou. Não sei bem por quê. As coisas terminam como começam: sem aviso. Mas o carro ficou. A Toro ficou.
O problema é que eu moro em São Ludgero. Cidade pequena. Interior de Santa Catarina. Colonização alemã, igreja no centro, e uma frota de Toros que parece ter crescido exponencialmente depois que a pianista foi embora. Não é só o trânsito da “grande” cidade. É a rua principal, o estacionamento do supermercado, a fila na padaria. Toro preta, Toro branca, Toro prata, Toro vermelha (essa, graças a Deus, não era dela). É como se o município tivesse decidido, em assembleia secreta, que todas as famílias deveriam comprar uma Toro para me lembrar do que passou.
Há dias em que faço pequenas apostas comigo mesmo. Hoje vou encontrar três. Não, cinco. Não, nove. E invariavelmente encontro. É impressionante. Antes de conhecer a pianista, eu não via Toros. Agora, elas estão em todos os lugares. Estacionadas em frente à igreja, na fila do drive-thru, na saída da escola. Parece que todo mundo em São Ludgero comprou o maldito carro. Ou que a Toro, como a pianista, também tem um plano secreto para me assombrar.
Donald Winnicott, o psicanalista que entendia de ursinhos de pelúcia, falava de objetos transicionais. São os objetos que a criança usa para suportar a ausência da mãe. A Toro, para mim, virou um objeto transicional. Não da infância, mas sim da despedida. Cada Toro que eu vejo é um lembrete de que ela existiu, de que fomos a Florianópolis, de que compramos discos. Mas também é um alívio: não é ela. É só um carro. O carro passou, o romance também, e eu sigo andando pela rua principal de SL, contando Toros como quem conta ovelhas para dormir.
Há dias em que a aposta se torna obsessiva. Sete, doze, quatro. É uma forma de controlar a lembrança, de domesticar a ausência. Se eu sei quantas Toros passaram por mim, então eu sei que o romance também passou, que ele teve um começo, um meio, e um fim que se repete toda vez que uma picape branca cruza a praça da matriz.
O curioso é que a pianista, se soubesse disso, provavelmente riria. Ela era do tipo que ria das minhas tentativas de entender música clássica. Diria que estou sofrendo de uma neurose de estimação, que a Toro é apenas um carro, e que em São Ludgero todo mundo tem uma Toro porque, bem, é São Ludgero e ela tem razão. Mas a psicanálise me ensinou que os objetos nunca são só objetos. Eles carregam afetos, memórias, projeções. A Toro é a concha que guarda o som do mar. Mesmo vazia, ela ainda ecoa.
Hoje, quando saio de casa, ainda conto Toros. A pianista já não ocupa mais meus pensamentos como antes. Mas o carro continua ali, branco, robusto, indeciso entre ser picape e SUV. E eu, toda vez que vejo uma, lembro do toca-discos, dos discos, da ida a Florianópolis. E sorrio. Talvez seja isso, no fim das contas, o amor: a capacidade de transformar um carro comum numa lembrança que não cabe no porta-malas.
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