A PIPA DO VOVÔ NÃO SOBE MAIS. E AGORA, DR.?
Há um momento na vida de todo homem que poderia ser narrado como uma piada de mau gosto, mas que na verdade é um dos silêncios mais eloquentes da clínica. Ele chega ao consultório, senta na borda da poltrona, coça a nuca e começa a falar do trabalho. "Estou cansado." "Ando sem paciência." "Não sei o que deu em mim." Até que, no final da sessão, quando o tempo já está acabando, ele solta a frase que estava lá desde o começo: "E também, doutor... a pipa do vovô não sobe mais."
É uma frase que eu escuto com variações mínimas há anos. Às vezes é dita com um sorriso amarelo. Às vezes com uma raiva mal disfarçada. Às vezes com a frieza de quem está relatando um defeito mecânico num carro que já não vale mais o conserto. E sempre vem acompanhada de um silêncio que pesa mais do que a confissão. O homem que não consegue mais ter uma ereção não está apenas enfrentando um problema vascular ou hormonal. Está, muitas vezes, diante da primeira evidência física de que o corpo não responde mais à vontade. E que a vontade, por sua vez, já não responde ao desejo.
A impotência sexual, na clínica psicanalítica, raramente é apenas fisiológica. Ela é, quase sempre, a ponta visível de um processo depressivo que vinha se arrastando há meses ou anos, disfarçado de cansaço, de irritabilidade, de falta de apetite, de insônia, de uma sensação difusa de que a vida perdeu a cor. A depressão masculina, como se sabe, não se veste de tristeza. Veste-se de cinismo, de isolamento, de excesso de trabalho. E, eventualmente, de silêncio genital.
Freud, que nunca teve vergonha de falar sobre o que os outros evitavam, notou que a libido — essa energia que move o desejo — é a mesma que move o interesse pela vida, pelo trabalho, pelos outros. Quando a libido recua, ela recua de tudo. O homem que perde o desejo sexual muitas vezes já perdeu, antes, o desejo de sair, de conversar, de planejar, de existir. A disfunção erétil é o sintoma mais visível de uma crise de desejo que já vinha se anunciando há muito tempo e que, muitas vezes, foi ignorada porque o homem aprendeu que não se deve falar disso.
Acontece que o pênis, ao contrário do que a cultura popular acredita, não é um músculo autônomo. Ele é profundamente influenciado pela mente. E a mente, quando deprimida, não envia os sinais certos. A ereção exige relaxamento, entrega, confiança. A depressão, ao contrário, é um estado de alerta permanente. O corpo do deprimido está sempre pronto para o pior. E não há nada menos erótico do que estar pronto para o pior.
O homem que não consegue mais ter uma ereção muitas vezes acredita que o problema é físico. Faz exames, toma remédios, troca de parceira, troca de posição. O que ele raramente faz é perguntar: o que está acontecendo com a minha vida? O que está sugando a minha energia? O que eu não estou sentindo que meu corpo está sentindo por mim? A disfunção erétil, nesse sentido, é uma mensagem. Uma mensagem do corpo que a boca não consegue dizer. E a mensagem, em geral, é: estou exausto.
O tratamento, então, não pode ser apenas o comprimido azul. O comprimido pode fazer o sangue circular, mas não faz o desejo circular. O desejo, para circular, precisa de um espaço onde o homem possa, finalmente, dizer o que não está dizendo. O divã é esse espaço. É o lugar onde o homem pode parar de fingir que está tudo bem. Onde pode admitir que o cansaço é mais profundo do que o que se vê. Onde pode descobrir que a pipa do vovô não subia mais porque ele, o vovô, havia perdido o vento.
A boa notícia, se é que há uma, é que o vento pode voltar. Mas não volta sozinho. Volta quando o homem se permite sentir a falta que ele estava enchendo de trabalho, de preocupação, de cinismo. Volta quando ele para de tratar o próprio corpo como uma máquina que precisa de manutenção e começa a tratá-lo como um território de prazer. Volta quando ele descobre que a impotência não é um fracasso, mas um aviso. E que avisos, quando escutados a tempo, podem salvar mais do que a vida sexual. Podem salvar a vida.
Woody Allen, que nunca precisou de Freud para ser neurótico, disse uma vez: "O sexo alivia a tensão. O amor a cria." A psicanálise talvez acrescentasse: a depressão mata a tensão e o amor juntos. O tratamento, então, não é sobre fazer o pênis funcionar de novo. É sobre devolver ao homem a capacidade de sentir o vento, mesmo que ele não saiba mais onde encontrá-lo.
ATENÇÃO! Os artigos e colunas assinados são de inteira responsabilidade de seus autores. Os colunistas não possuem qualquer tipo de vínculo empregatício com o portal ContextoSC.
Comentários: