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Sábado, 17 de Outubro 2026
Filipe De Castro

A metáfora da mula sem cabeça e o machismo estrutural no voto brasileiro

Análise resgata a figura mitológica para discutir o preconceito contra a participação feminina na política e o medo do pensamento crítico.

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Por ContextoSC
A metáfora da mula sem cabeça e o machismo estrutural no voto brasileiro
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NO BRASIL, NÓS TEMOS MULAS SEM E COM CABEÇA

 

Há uma frase que circula nas redes sociais, dita por um desses sujeitos que ganharam notoriedade por dizer o que pensam sem pensar. A frase é mais ou menos assim: mulheres não deveriam votar porque não sabem votar. Soa como piada. Soa como provocação de boteco. Mas não é. É uma declaração que tem lastro, que tem história, que tem estrutura. E é sobre essa estrutura que eu quero escrever.

A mula sem cabeça é uma das figuras mais persistentes do folclore brasileiro. Conta a lenda que uma mulher que se deita com um padre é condenada a se transformar, nas noites de quinta para sexta-feira, num animal acéfalo que galopa cuspindo fogo. Repare nos detalhes: o castigo é a perda da cabeça. Da razão, da fala, do juízo. E o castigo recai sobre a mulher. O padre, o homem de batina, o que tinha voto de celibato e mesmo assim a procurou, sai ileso. A mula sem cabeça não é uma fábula inocente. É um mito de gênero. É a história de uma mulher que ousou desejar e foi transformada em besta sem cabeça. O Brasil aprendeu, desde muito cedo, a associar o desejo feminino à monstruosidade.

O mito tem raízes ibéricas. Veio de Portugal, atravessou o Atlântico nos porões dos navios, e aqui encontrou solo fértil. A pesquisadora Câmara Cascudo, que passou a vida estudando essas histórias, registrou que o padre, na versão original, também era punido, mas só depois de morto. A mulher, não. A mulher carregava o castigo em vida. A mula sem cabeça é a mulher que não pode falar, que não pode pensar, que não pode decidir. É a mulher reduzida a corpo que galopa sem rumo, cuspindo fogo, assustando quem passa. É a mulher que perdeu a cabeça e, com ela, a cidadania.

Pois bem. Quando alguém diz que mulher não deveria votar porque não sabe, está invocando esse mito sem saber. Está repetindo, com outras palavras, a mesma sentença: a mulher não tem cabeça para decidir. Não tem juízo para escolher. Não tem razão para participar da vida pública. Deve ficar no seu lugar, que é o lugar do corpo, do cuidado, do silêncio. A mula sem cabeça é a mulher que não vota. Ou, melhor dizendo, é a mulher que vota e depois é chamada de mula — porque votou mal, porque não sabia, porque foi enganada.

Aqui a coisa fica interessante. Porque o mesmo discurso que diz que a mulher não sabe votar é o discurso que, historicamente, negou à mulher o direito de aprender. O analfabetismo feminino foi, durante séculos, uma política de Estado. As mulheres não votavam porque não sabiam ler. Não sabiam ler porque não iam à escola. Não iam à escola porque o lugar delas era a casa. E agora, quando finalmente aprenderam a ler, quando finalmente ocuparam as escolas, as universidades, os empregos, quando finalmente passaram a ser maioria do eleitorado brasileiro, alguém aparece para dizer que elas não sabem votar. É uma piada que se conta há quinhentos anos, e que sempre termina com a mulher perdendo a cabeça.

O mito de Eva e o mito de Pandora contam a mesma história com sotaques diferentes. Eva come o fruto proibido e condena a humanidade ao pecado. Pandora abre a jarra e liberta todos os males sobre a terra. Em ambos os casos, a mulher é a origem do caos. A mulher é aquela que não obedece, que não se contém, que não respeita os limites. A mulher é a que abre o que estava fechado, a que come o que estava proibido, a que vota em quem não devia. A mula sem cabeça é a versão brasileira desse arquétipo. É Eva com cascos. É Pandora com fogo na boca.

Freud, no início do século XX, escreveu um texto chamado "Psicologia das Massas e Análise do Eu". Nele, ele descreve o que acontece com o sujeito quando se dissolve numa multidão. O indivíduo regride. Perde o senso crítico. Torna-se sugestionável, impulsivo, acrítico. Obedece ao líder como obedecia ao pai. Em outras palavras, perde a cabeça. A massa é o lugar onde a cabeça desaparece. E o sujeito que perde a cabeça na massa é, paradoxalmente, o mesmo sujeito que acusa a mulher de não ter cabeça. A projeção é evidente. O homem que se dissolve no rebanho, que repete o que ouviu no grupo da família, que vota contra os próprios interesses porque o líder mandou, é ele mesmo a mula sem cabeça. Mas ele não sabe. E, como não sabe, aponta o dedo para a mulher.

A mula sem cabeça é o sujeito que renunciou ao próprio juízo em troca de pertencimento. É o eleitor que não pensa. É o vizinho que compartilha fake news. É o motorista que fecha o outro no trânsito porque todo mundo faz assim. É o homem que não suporta a ideia de que a mulher possa ter uma cabeça pensante, um desejo próprio, um voto que não seja o dele. Porque se a mulher tem cabeça, então ele, que perdeu a sua, fica sozinho. E a solidão do sujeito que renunciou a si mesmo é o pior dos castigos.

A psicanálise, nesse sentido, é o contrário da mula sem cabeça. É o processo pelo qual o sujeito se apropria da própria cabeça: da própria fala, do próprio desejo, da própria responsabilidade. O divã é o oposto do grupo de WhatsApp. É o lugar onde ninguém repete o que o outro disse. O lugar onde o sujeito, enfim, pode perguntar: o que eu quero? E a resposta, mesmo quando incômoda, é o começo da liberdade.

Não é coincidência que os mesmos que dizem que mulher não deveria votar sejam os que temem o divã, temem a escola, temem o livro. A cabeça, para eles, é um perigo. Porque uma cabeça pensante não obedece. Uma cabeça pensante não segue o rebanho. Uma cabeça pensante vota e vota, muitas vezes, contra quem queria mantê-la sem cabeça.

A mula sem cabeça, no fim das contas, não é a mulher. É o medo que o homem tem da mulher que pensa.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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