A MATERNIDADE E SEU DUPLO SEGREDO: O QUE NINGUÉM SE ATREVE A DIZER EM MEIO AOS PARABÉNS
Enquanto os homens se perdem sem um roteiro, as mulheres são esmagadas por um roteiro demais. E o mais sagrado deles pode ser o mais opressivo.
Enquanto escrevia sobre a crise silenciosa dos homens — aquela sensação de estarem “desmontados” e sem roteiro — uma paciente me fez um comentário que ecoou como uma revelação. Ela, que havia decidido não ter filhos, disse: “Às vezes, olho para esses homens perdidos e penso: eu também não quero ser a mãe de mais um. Nem do meu filho, nem do meu marido.”
A frase corta como um bisturi. Ela expõe, sem piedade, um nó da nossa época. Se o homem contemporâneo sofre por falta de um script de masculinidade, a mulher sofre pelo excesso de scripts de feminilidade. E o mais poderoso, intocável e biologicamente enraizado deles é o da maternidade.
A sociedade vende a maternidade como realização máxima, amor incondicional instintivo e sentido último da biologia feminina. É um pacote tão brilhante e pesado quanto um diamante do tamanho de uma alma. O que a psicanálise ousa investigar, com sua frieza clínica e necessária, é a outra face desse diamante: a ambivalência radical, a agressividade soterrada, o despedaçamento psíquico e a perda de identidade que acompanham, secretamente, a experiência de gerar e cuidar de outro ser.
A escuta analítica é terra de segredos inconfessáveis. É onde se ouve, em sussurros carregados de culpa: “Quando ele chorou sem parar pela terceira madrugada, eu pensei em jogá-lo pela janela.” Ou: “Sinto saudades da mulher que eu era, e odeio esta estranha exausta que me substituiu.” Ou ainda, a mais silenciosa de todas: “Não sinto nada. Só um vazio cansado onde deveria haver amor.”
Esses pensamentos não são monstros. São a verdade humana da maternidade que o mito do instinto materno tenta calar. A psicanalista Melanie Klein falava da mãe como o primeiro objeto, dividido entre o “seio bom” (que alimenta) e o “seio mau” (que frustra). O que se esquece é que essa divisão está dentro da própria mãe. Ela é, ao mesmo tempo, a cuidadora devotada e a mulher que, em seu íntimo, pode odiar aquele ser que a consome. Donald Winnicott, de forma consoladora, falava da mãe “suficientemente boa” e incluía, em seus escritos, a lista dos 18 motivos pelos quais uma mãe odeia seu bebê. O ódio, para ele, era parte constitutiva do amor, e precisava ser reconhecido para não envenenar tudo.
Aqui reside a pressão insuportável: a mulher não pode apenas ser uma mãe “suficientemente boa”. Ela deve ser uma mãe excelente, realizadíssima, plena e instagramável. Deve amamentar, mas não muito; trabalhar, mas não demais; ter um corpo de antes, com uma alma transformada. Deve sentir o amor sublime, e nunca o tédio, a raiva ou a aridez. Este ideal, este supereu materno brutal, é tão opressivo quanto o ideal de masculinidade inatingível que paralisa os homens.
E isto nos leva de volta ao comentário da minha paciente. A recusa à maternidade, em muitos casos, não é fria ou egoísta. É, por vezes, um ato de lucidez psíquica. É a recusa a entrar em um roteiro que exige a anulação da mulher como sujeito desejante, para transformá-la em função: a Mãe. É o medo de ser, mais uma vez, a única responsável pelo afeto e pelo cuidado — papel que, como vimos, muitas já exercem em excesso com seus parceiros desmontados.
Desmontar o mito não é atacar a maternidade. É salvá-la da idealização. É permitir que ela seja vivida como experiência humana: falha, ambivalente, cansativa, às vezes gloriosa, muitas vezes mundana. E, acima de tudo, uma escolha possível, e não um destino biológico ou uma prova de feminilidade.
Talvez a verdadeira revolução feminista, agora, não seja apenas sobre poder trabalhar fora. Seja sobre poder não ser mãe sem culpa. E, para as que o são, sobre poder odiar alguns momentos de sua maternidade, sem achar que são monstras. Só assim, livres do roteiro “sagrado”, as mulheres poderão encontrar, nelas mesmas, a autora de suas próprias histórias, com ou sem filhos nos braços.
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