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Terça-feira, 19 de Maio 2026
Filipe De Castro

A atualidade da psicanálise diante das ilusões de controle do século XXI

Em tempos de medicalização generalizada e algoritmos, a ética da escuta freudiana permanece como resistência em defesa da singularidade humana

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Por ContextoSC
A atualidade da psicanálise diante das ilusões de controle do século XXI
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PORQUE AINDA LER FREUD NO SÉCULO XXI

Ler Sigmund Freud no século XXI é interrogar esse tempo presente como Freud fez no tempo dele. Do que as pessoas sofrem hoje? Qual é o mal-estar da nossa cultura? Qual é a relação entre a moral e a ética social com os desejos singulares de cada indivíduo? Quais são os ideais sociais propostos por instituições como a família, a escola e a religião? Qual é o lugar da criança, do adolescente e do adulto na cultura contemporânea?

A psicanálise, desde que surgiu como uma experiência de cura inventada pelo vianense, tem estado sempre presente, capaz de interrogar e de acolher, um por um, cada um daqueles que sofrem, que se perguntam, que se interrogam sobre a sua condição humana, na busca de encontrar algum sentido para a própria existência. Sem dúvida o surgimento da psicanálise foi um acontecimento importante para a humanidade, que modificou a relação de cada um consigo mesmo e com o outro. Ela é o que há de mais novo e transformador na condição humana.

Por isso Freud continua atual, e lê-lo é muito mais do que apenas ler; é também ler a si mesmo em Freud, e escrever e reescrever a própria história e a própria vida. A psicanálise aposta no desejo humano. Não sabemos qual é o sentido da vida, mas cada um deseja dar um sentido à sua vida e ao seu viver. A psicanálise é um discurso social, e uma aposta na palavra, no desejo, no sintoma e na singularidade.

Freud continua atual porque foi um dos primeiros a mostrar que o sujeito humano não coincide consigo mesmo, e que há sempre algo que escapa à consciência, algo que fala em nós sem que saibamos plenamente o que diz. Temos um inconsciente que nos habita. Num tempo marcado pela velocidade, pelo consumo, pelas identidades instáveis, pelas compulsões, pelos excessos de imagem e pela dificuldade de sustentar a palavra; Freud permanece vivo justamente porque relança a pergunta: o que deseja um sujeito?

Freud não oferece respostas, nem traz promessa de felicidade. Apenas introduz uma ética da escuta — do desejo, da diferença e da responsabilidade diante de si mesmo.

Vivemos num tempo de medicalização generalizada, onde tudo tende a ser patologizado, rotulado, etiquetado e medicalizado. Vivemos numa época que tende a medicalizar o sofrimento, a normalizá-lo e a reduzi-lo ao desempenho no trabalho, na produção e na adaptação social e familiar, produzindo assim novos sintomas. Freud nos lembra que o sintoma fala e que é preciso ouvi-lo no seu dizer, e a dor psíquica possui sentido, história e verdade singular.

Freud rompeu paradigmas, deu a palavra à mulher para que pudesse falar e ser ouvida e assim inaugurou uma nova sociedade e uma nova sexualidade, onde o humano não é apenas biológico, mas atravessado pela linguagem, pela fantasia, pela infância, pelo laço com o Outro. Muitos dos impasses contemporâneos — nas relações amorosas, na família, na educação, nas adicções e na experiência do corpo — continuam exigindo essa leitura. Nada mais atual que continuar lendo Freud.

Jacques Lacan, com seu movimento de retorno a Freud, fortaleceu ainda mais essa experiência analítica, essa prática onde o sujeito pode escutar em si aquilo que fala sem que ele próprio saiba o que diz.

Há, desde o tempo de Freud até os dias de hoje, muito ódio contra a psicanálise e os psicanalistas. Sem dúvida a psicanálise incomoda, na medida em que é uma prática que convida a renunciar ao gozo parasitário na existência, para então poder seguir com o desejo e o amor, passando da dor de existir à alegria de viver. A descoberta de Freud ainda fere a ilusão moderna de transparência, de controle e de autonomia absoluta do eu.

Seguir lendo Freud hoje é responder ao mal-estar da sociedade atual em seu apelo ao consumo, aos gozos objetais em que os próprios sujeitos se tornam objetos que se consomem a si mesmos, numa corrida em busca de falsas promessas de felicidade oferecidas pelo mercado, na forma de novos objetos da tecnologia. A psicanálise interroga a IA e a redução do humano a algoritmo, a estatística, a mercadoria, e a condição de objeto nos chamados "recursos humanos" nesse modelo de sociedade que consome gente.

A psicanálise interroga o desejo singular presente em cada conflito, o desejo inconsciente na forma de sofrimento, desadaptação ou transtorno: novos sintomas generalizados que a cada dia mais se pulverizam. Seguir com Freud é reinventar um modo singular de amar e trabalhar na alegria de viver.

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Jorge Sesarino
Psicanalista,
Membro da Escuela Freudiana de Buenos Aires.
Graduado em Psicologia,
Mestrado em Antropologia,
Doutorado em Psicanálise 
Psicanalista, ex-professor e supervisor clínico da PUCPR
Professor convidado do Inatotuto ESPE e outras Instituições no Brasil e no exterior. 
Conferencista nacional e internacional.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Jorge Sesarino
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