Por que ainda ler Freud?
O presente trabalho foi desenvolvido a partir de uma provocação recebida no início deste ano, pelo colega Filipe Castro, referente ao convite à escrita sobre o porquê de Freud ainda merecer ser lido. Será que ainda cabe pensar, ou dar lugar, ao pensamento freudiano no contemporâneo?
Freud sempre esteve à frente de seu tempo, na medida em que se propôs a escutar pacientes que eram compreendidos como “simuladores” de patologia, num contexto em que o cenário da histeria era mal compreendido e evitado pelos médicos no final do século XIX. Sigmund Freud era médico, curioso e dedicado ao conhecimento científico. Decidiu debruçar-se sobre a compreensão do que, para ele, apontava para uma descoberta importante diante da histeria: o que nos faz adoecer? Ou, melhor, o que está presente nas relações psíquicas e emocionais que acabam se manifestando como sintomas no corpo?
Os interesses de Freud atravessaram as manifestações nervosas e psíquicas e convocaram o autor a compreender os sintomas emocionais para além daquilo que a medicina apontava como um único caminho: o corpo. Uma das descobertas freudianas refere-se à conexão possível entre o processo civilizatório, o mal-estar na cultura e a sanidade mental. Embora essas conexões já possuíssem apontamentos na filosofia, algo ainda poderia ir além da lógica filosófica, configurando-se como um campo de estudos fértil e esclarecedor.
A contemporaneidade de Freud revela, ainda, sua busca incessante por compreender o caráter humano presente nas manifestações de massa e no que ocorria entre duas condições aparentemente antagônicas: o humano e as guerras. As questões freudianas nunca foram tão atuais.
Retomando a insatisfação na cultura e o mal-estar tão impregnado no homem civilizado, cabe destacar que enfrentamos, na atualidade, um fenômeno dirigido às promessas de cura, baseado em argumentações que acusam a
Ainda sobre o debate das promessas de cura, o embasamento desse contexto refere-se à expectativa de satisfação das necessidades humanas e subjetivas, já presentes em nossa aflição existencial, que, por sua essência mercadológica e urgência histérica, se destacam aos olhos de todos aqueles que trabalham com a clínica e, ao mesmo tempo, atravessam todo analista que se dedica ao campo da psicanálise e que minimamente se interroga sobre as questões da ética.
No que se refere à clínica e à leitura de Freud na atualidade, torna-se urgente compreender que as promessas para aplacar o mal-estar, instalado na cultura, estão, de alguma forma, gerando um efeito contrário ao esperado, pois a psicanálise desperta curiosidade e se destaca justamente por estar na contramão das promessas de cura que hoje se intensificam.
No texto Além do princípio do prazer (1920), Freud se interroga sobre as articulações possíveis entre o psiquismo e as pulsões de vida e de morte, demarcadas pelas re-petições² vividas e experienciadas pelo sujeito. Nessa perspectiva, as re-petições podem ser compreendidas como sintoma e como um duplo pedido de recordar e elaborar as questões vividas na cultura de caráter traumático.
Destaca-se, ainda, que, no contexto social atual, marcado pela polarização política e pelas promessas milagrosas de cura das psicopatologias, a ética se configura como peça fundamental para a escuta e para a posição do analista, que precisa se colocar como ouvinte do outro, da mesma forma que Freud se colocou a escutar a histeria em sua época, como um sintoma social. Torna-se urgente escutar as re-petições sociais, ou esse novo pedido social, pois, assim como Freud se posicionou como alguém capaz de escutar o duplo pedido do outro, a psicanálise, como legado freudiano, ocupa esse mesmo lugar na atualidade.
A partir dessas articulações, retomemos a pergunta que nos convoca: como pensar Freud na atualidade?
Sobre os textos de Freud, a cultura e o mal-estar, cabem algumas reflexões. Nas cartas a Einstein, quando o cientista questiona Freud sobre a possibilidade de um cenário de guerras diferente, caso a escolha humana fosse mais construtiva ou igualitária, Freud responde que, infelizmente, isso não é possível, pois mais forte que o adestramento do comportamento em massa é o pulsional, anterior ao processo civilizatório. Assim, a escolha humana tende, reiteradamente, a oferecer seu pior diante do cenário de guerra.
Alguns efeitos dessa problemática se manifestam nos ambientes psicológicos, onde as demandas são as mais diversas: terapias de sessão única, solicitações de acolhimento psicológico em massa, pavor em estabelecer vínculos e o desamparo como queixa. Tudo isso sem possibilitar a evolução para uma demanda subjetiva singular do sintoma, que é a real proposição freudiana.
Entre mal-estar, cultura, psicologia das massas e as psicopatologias da vida cotidiana, a psicanálise surge como uma observação do humano e das possibilidades de lançar questões sobre a subjetividade e um lugar para o sintoma. Definitivamente, Freud nunca foi tão atual. Espero, assim, ter lançado luz e despertado curiosidade diante da provocação proposta.
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Adriana de Oliveira Limas Cardozo |
Referências bibliográficas
FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Mal-estar na cultura (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. Porque a Guerra? (1932). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. O Seminário, Livro 20: Mais, Ainda. 1972. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
CASTRO, J. O desejo do analista como operador ético da psicanálise. Fractal: Revista de Psicologia, v. 32, n. 1, Rio de Janeiro, 2020.
¹ Mestre, doutora e pós-doutora em Ciências da Linguagem pela Unisul, com estágio doutoral na Université Paris VII – Paris, França. Professora universitária – Unisul.
² Destaque da autora. O termo re-petições foi utilizado para marcar um jogo de palavras, com o intuito de trazer um novo olhar ao termo freudiano repetição.
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