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Sábado, 25 de Julho 2026
Filipe De Castro

A arte de gozar sozinho

Longe do olhar alheio, a capacidade de desfrutar da própria companhia transforma a solidão escolhida em refúgio e liberdade

ContextoSC
Por ContextoSC
A arte de gozar sozinho
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A ARTE DE GOZAR SOZINHO

Este texto não é um manual para banhos demorados. Também não é uma gramática masturbatória, embora o título, confesso, possa ter criado expectativas. Lamento decepcioná-los, mas o gozo de que vou falar aqui é outro. Menos anatômico, mais existencial. É sobre a arte — sim, arte — de aproveitar a própria companhia num mundo que parece ter feito um pacto contra a solidão.

Vamos combinar: a nossa cultura não é generosa com quem gosta de ficar sozinho. Quem viaja só é meio estranho. Quem janta num restaurante desacompanhado é meio triste. Quem vai ao cinema sozinho é meio fracassado. Há uma pressão invisível para que a vida seja compartilhada, para que as experiências sejam testemunhadas, para que a felicidade seja, acima de tudo, uma performance social. Gozar sozinho, nesse contexto, é quase um ato de rebeldia. É dizer: não preciso de plateia. Não preciso que você veja para que seja real.

Conheço uma mulher que passou anos evitando ir ao cinema sozinha. Não porque não gostasse de cinema, mas porque tinha vergonha. Achava que as pessoas olhariam para ela com pena, achariam que ela não tinha amigos, que era uma coitada. Até que um dia, por acaso, entrou numa sessão de tarde vazia, sentou na fileira do meio, e assistiu a um filme ruim com prazer imenso. "Foi a primeira vez que fiz algo só porque queria", ela me disse. "Sem ter que dar satisfação a ninguém. Eu me senti livre." O que ela descobriu, sem saber, é que a solidão escolhida não tem nada a ver com a solidão imposta. Uma é abrigo. A outra, abandono.

A psicanálise tem um nome bonito para isso: a capacidade de estar só. Quem cunhou o termo foi Winnicott, um pediatra que virou psicanalista e passou a vida observando crianças. Ele percebeu que a capacidade de estar só não é inata. Ela se desenvolve a partir de uma experiência paradoxal: a criança aprende a ficar sozinha na presença da mãe. Ela brinca, explora, se ocupa e a mãe está ali, disponível, mas não invasiva. Com o tempo, essa presença é internalizada. A criança descobre que pode estar só porque carrega dentro de si a imagem de alguém que a sustenta. Cresce, e aprende que a solidão não é abandono. É, isso sim, uma forma de presença.

O problema é que nem todo mundo teve essa experiência. Muitos aprenderam que estar só é estar desamparado. Para esses, a solidão não é escolha. É ameaça. E aí, qualquer momento a sós vira um encontro com o próprio vazio. É preciso estar sempre acompanhado, sempre distraído, sempre preenchido. O silêncio incomoda. O ócio assusta. A própria companhia, enfim, é insuportável.

Há, porém, um outro caminho. É o sujeito que descobre, aos poucos, que a própria companhia pode ser interessante. Que o silêncio não precisa ser preenchido. Que um café tomado sozinho numa tarde de domingo pode ser tão nutritivo quanto um jantar em boa companhia. Que um filme visto sem ninguém ao lado, com a atenção livre para chorar ou rir sem constrangimento, é uma experiência íntima que a plateia, muitas vezes, atrapalha.

Já ouvi gente dizer que "a felicidade só existe quando é compartilhada". É uma frase bonita, mas suspeito que seja mais sobre medo do que sobre felicidade. Porque se a felicidade depende do outro para ser real, então ela é frágil. Depende de convite, de disponibilidade, de coincidência de agendas. A felicidade que a gente aprende a ter sozinho, essa, é mais resistente. Ela não pede licença. Não espera resposta. Ela simplesmente está ali, no café, no filme, no silêncio, esperando a gente perceber.

Não estou dizendo que a solidão é melhor que a companhia. Não é. Mas se a gente não aprende a gozar sozinho, a companhia vira muleta, e não encontro. Vira necessidade, não escolha. E a diferença, como em quase tudo na vida, é o que separa o prazer do desespero.

A arte de gozar sozinho é, no fundo, a arte de gostar de si mesmo o suficiente para não precisar de plateia. Para poder sentar na mesa de um restaurante, olhar o cardápio sem pressa, pedir o que quiser, comer devagar, e sair sem dar satisfação a ninguém. É aprender que o prazer não precisa de testemunha. E que a melhor companhia, às vezes, é a que a gente carrega dentro de si.

Sensata - Saúde do Pensar
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FONTE/CRÉDITOS: Filipe De Castro
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